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Os 100 anos do inverno mais gelado no Rio Grande do Sul

Neve em Erechim | Foto: CPMemória
Porto Alegre registraria seu recorde de frio, com mínima de 4 graus negativos, em 11 de julho de 1918

Há cem anos os gaúchos se enregelavam em um inverno que jamais foi superado em rigor. Na sequên…


Neve em Erechim | Foto: CPMemória
Porto Alegre registraria seu recorde de frio, com mínima de 4 graus negativos, em 11 de julho de 1918


Há cem anos os gaúchos se enregelavam em um inverno que jamais foi superado em rigor. Na sequência de um super evento de La Niña entre 1916 e 1917, o clima seguia muito mais frio do que o normal, e 1918 começou ainda com as águas do Pacífico frias. O resultado na América do Norte, no começo de 1918, foi um inverno que até hoje é considerado o mais gelado da história em muitas cidades dos Estados Unidos. Meses depois, a América do Sul viveria o mesmo rigor.

O Rio Grande do Sul experimentou sucessivas ondas polares incomuns que trouxeram geada e mínimas como raramente testemunhadas, não superadas cem anos depois. Não foi um inverno de nevadas espetaculares como de 1870, que deixou os morros de Porto Alegre brancos, ou de 1879, em que os documentos da época relatam vacas soterradas por mais de um metro de neve em Vacaria, ou de agosto de 1965, em que a Metade Norte do Estado foi tapada de branco no que foi descrito como o “flagelo branco”. O inverno de 1918 teve muita neve, mas, acima de tudo, frio e gelo persistentes.

O frio começou a castigar com ferocidade Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil em junho, especialmente a partir da segunda quinzena. Entre os dias 22 e 23 de junho de 1918, Buenos Aires teve grande nevada, que chegou a 15 centímetros de acúmulo. A neve alcançou ainda outras cidades do Centro da Argentina, onde o fenômeno é raro, a ponto de ter caído na região de Paso de los Libres, na fronteira com Uruguaiana.

Após provocar neve no Sul do Brasil, a onda polar acabou por trazer desastre econômico ao Paraná, São Paulo e Minas Gerais. A geada dizimou as lavouras de café. Na capa de 10 de julho de 1918, o Correio do Povo trazia o relato: “Ninguém previa ou podia prever que a grande catástrofe se tramava na sombra do desconhecido. No dizer de toda a gente, esta geada foi muitíssimo mais forte que a de 1870, que passava por ter sido a maior que até então havia memória”. Na última semana de junho, a temperatura chegou a -9ºC em Minas Gerais. Geou até em Belo Horizonte. Na cidade de São Paulo, espessa camada de geada foi confundida com neve na Avenida Paulista, onde fez -3ºC.

Porto Alegre começava a ganhar ares de cidade grande em 1918. Milhares de gaúchos morriam naquele inverno devido à Gripe Espanhola, que, segundo a ciência, foi favorecida pelo período muito frio no planeta. Em ano de Gripe Espanhola, o que menos se desejava era inverno rigoroso.

Depois do gelo da grande onda de frio do fim de junho, na segunda semana de julho, massa de ar polar com intensidade raramente vista nos últimos 200 anos chegou ao Rio Grande do Sul. A onda teve início sábado, dia 6. Os relatos publicados pelo Correio do Povo davam conta que chovia muito em Caxias do Sul sábado à tarde, quando de repente a chuva virou neve forte às 17h. Na sequência, a neve deu lugar a dias de sol, mas congelantes, o que fez com que a neve não derretesse por até quatro dias, tal como noticiado no Correio.

Às 7h45m de 11 de julho de 1918, Porto Alegre registraria seu recorde de frio, com mínima de 4 graus negativos, marca jamais batida nos cem anos seguintes e jamais observada nos escassos e descontinuados dados do século XIX. Quatro fatores determinaram a mínima na análise da MetSul: a poderosíssima massa de ar polar, o frio da véspera com extremas entre -1,0ºC e 9,6ºC, o ar muito seco, que garantiu máxima de 13,2ºC na tarde do dia 11, e o céu limpo com vento calmo. O frio provocou mortes em Porto Alegre e no Interior. No dia 11, as mínimas foram de -9ºC, em Vacaria; -7,6ºC, em Guaporé; -6,9ºC, em Caxias do Sul; -4,1ºC, em Alegrete e -3ºC, em Piratini. Dois dias antes, Buenos Aires registrara o seu recorde histórico de frio, que segue até hoje, com -5,4ºC.

A geada foi muito severa, conforme os jornais da época, com registro de congelamento até em locais que hoje raramente testemunham o fenômeno, como em Torres. “São gerais neste município os lamentos dos agricultores em consequência da geada que prejudicou os canaviais, até aqueles situados nos altos dos morros, que antes nunca haviam sido prejudicados. Os bananais foram destruídos. Os arroios, açudes e rios de pouco curso gelaram, apresentando uma camada de quatro centímetros de gelo”, diziam os relatos de Torres. Da Serra, assinantes enviaram para a sede do jornal bloco de gelo de 300 quilos retirado de um pequeno lago em Caxias do Sul, que “foi apreciado pelas inúmeras pessoas que acorreram à frente do edifício do Correio do Povo”. Carta enviada por um leitor e colaborador noticiou que foi preciso levar ao fogo a tinta da caneta que havia congelado pelo frio de -9ºC. Se hoje reclamamos do frio, nossos antepassados enfrentaram rigor ainda maior e sem os recursos de aquecimento atuais.

A neve em Caxias - 1918

“A nevada alvoroçou a população, principalmente a petizada, que até às 21 horas, quando cessou a neve de cair, esteve na rua entretendo-se em atirar uns nos outros bolas feitas de flocos de neve. Domingo pela manhã, a população extasiou-se ante o magnífico panorama. Tudo era branco: os telhados, as ruas, as árvores. E a neve, à luz do sol, despedia cintilações magníficas. Os fotógrafos munidos de suas Kodaks corriam em todos os sentidos apanhando fotografias de lugares mais apropriados e onde a neve era mais espessa. À tarde, grupo de cavalheiros e senhoritas da sociedade caxiense organizaram na Praça Dante Aligheri guerrilhas cujos projéteis improvisavam com bolas de neve”. (Correio do Povo de 11 de julho de 1918)


Fonte: jornal Correio do Povo

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