Chico Buarque, por Guto Leite

QUE SORTE A NOSSA!

Guto Leite[1]


A convite da Opus Produtora, estive no Auditório Araújo Vianna no último dia 19, acompanhando o show Caravanas, de Chico Buarque. Quando me convidaram, fiquei pensando – e com isso começo nossa conversa –: o que é assistir a um show do Chico Buarque? Sei que podem dizer “oras, é se sentar lá e assistir!”, mas quem já foi a um show dele, sabe que a coisa não é bem assim.

Primeiro, assistir a um show do Chico é assistir ao show de um artista que vem produzindo o que tem de melhor em canção popular nos últimos cinquenta anos. Se tem algo que o marca como compositor é uma espécie de excelência constante; dos primeiros sambas às intrincadas canções recentes, a barra está sempre lá em cima. Aliás, mais do que nos shows anteriores do artista, momentos variados de sua produção estão representados nas cerca de 90 minutos de espétaculo, de “Retrato em branco e preto” (1968), parceria com Tom Jobim, ao álbum lançado no ano passado – com canções espantosas até mesmo para esse padrão altíssimo, como “Massarandupió”.

Segundo, assistir a um show do Chico é assistir a um artista que, mesmo nos momentos mais estúpidos da história recente brasileira, é uma unanimidade. Já ouvi falas do tipo: “o problema é que ele se mete em política” ou “o Chico não é cantor, é compositor”. Não importa, até os que o criticam o fazem por tratar-se de posição meio incontornável na música popular brasileira, um centro que baliza boa parte do que se vem produzindo. (Não estou dizendo que não haja limites de repesentação nas canções do Chico. Há sim, e a maior parte das produções das perifeiras brasileiras depois dos anos 1990 passam ao largo da voz do compositor. Então vá lá: Chico é o centro cancional do Brasil do século XX, do Brasil moderno. É o Drummond da canção, ou algo assim.) No show, sentimos sua unanimidade desde a primeira música, como se todos estivessem ali pra reconfirmarem suas certezas na grandiosidade de Chico, para verem um artista que os ajuda a construir sua visão de mundo. Sinceramente, a emoção geral é tamanha que se torna difícil até, de fato, assistir ao show. O show começa e, antes de terminar, já foi maravilhoso, incrível, exatamente aquilo que esperávamos.

(Sobre Chico ser um cantor ruim, não há como defender essa impressão. Chico é um excelente intérprete de suas canções! Desconfio que tenha um ouvido de virtuose para as melodias, por causa das linhas difíceis que compõe e da capacidade em alterar o tom de algumas canções, como no caso deste show, sem desafinar. Acima de tudo, o artista encontrou um modo de cantar muito acertado para a notável densidade de suas canções. Se consigo me explicar, suas ênfases são sutis, respeitando a complexidade do objeto. No caso de outros intérpretes, não é incomum que sublinhem muito algumas palavras ou passagens, fazendo com que a canção saia perdendo.)

Terceiro, assistir a um show do Chico é ouvir alguns dos mais exímios músicos do país. O artista trabalha há um bom tempo com instrumentistas capazes de seguir a direção musical e os arranjos de Luiz Claudio Ramos e acrescentar suas particularidades e talentos – quase todos tocam mais de um instrumento no espetáculo. Em Caravanas, acho que chegamos a um ápice dessa dinâmica. Assisti a alguns espetáculos de Chico e nunca tinha visto um grupo tão preparado a conferir, por todo o tempo, músicas sofisticadas e afinadas ao artista que acompanham. Uma sonoridade econômica, precisa, mas sem medo de também se multiplicar e se desdobrar quando é tempo. No conjunto, um regalo maravilhoso para nossos ouvidos tão maltratados pelo presente, emocionante em diversas passagens, extasiante. Minhas reverências a João Rebouças, Bia Paes Leme, Chico Batera, Jorge Helder, Marcelo Bernardes, Jurim Moreira e ao maestro Luiz Claudio Ramos.

Quarto, assistir a um show do Chico é encontrar um artista que sabe que é impossível não ser político. Isto é, que não ser um artista político é ser o pior tipo de artista, conivente com as desigualdades, com a miséria, com barbárie. É uma de suas maiores lições, sobre como ele consegue manter a autonomia das canções – elas não se curvam a determinada pauta ou partido – e ao mesmo tempo intervir de maneira brilhante. Seu show atual é salpicado de momentos de reconhecida atuação política em sua obra: “Partido alto” (1972), sofreu censura, “Sabiá” (1968), vaiada no Festival Internacional da Canção por ser considerada alienada, “Gota d’água” (1975), da peça homônima, engajada, e a recente “As caravanas” (2017), comentário assombroso sobre a ascensão do fascismo no Brasil.

Com todos esses pressupostos, eu modulo a pergunta inicial dessa conversa – o que é um show do Chico Buarque? – para: como se assiste a um show do Chico Buarque? Suspeito que eu assista errado. Se uma parte de mim se deixa levar, se emociona ao vê-lo no palco, se enternece com as canções, se espanta com a qualidade musical, enfim, seja conduzida pela arte da canção no seu funcionamento mais bem acabado; outra parte resiste, toma distância e, como um detetive, busca inferir as razões que levaram Chico a montar o espetáculo desse jeito e não de outro. Mais do que isso, como sei que Chico é um grande artista, acredito que haja aspectos do mundo que estejam sendo representados neste show sem que ele se dê conta.

Como o caso não está encerrado, posso apenas compartilhar com vocês algumas pistas, sem prejuízo da investigação. Sei que já houve, mas nunca vi um show tão político de Chico Buarque – salvo engano, “A volta do malandro” e “Homenagem ao malandro”, a primeira cantada em fundo vermelho, saúda o amigo Lula na prisão e o compara aos atuais gerentes do país. Além disso, é chocante o quanto Chico parece moderno. A sintese é a seguinte: quando o Brasil finge que avança, suas canções soam antigas, quando o país revela sua verdadeira condição estagnada, Chico o puxa pra frente. Minha impressão mais forte, falando nisso, reforçada pelo sol estilizado (ou estrela) sobre as ondas ou rede (ou fios frouxos entre postes) – cenário de Helio Eichbauer –, é a de que o show é uma expressão de esperança, de luta, de que devemos seguir, continuar caminhando. É como se o artista nos dissesse “não esmoreçam. Existe o tempo, os amores, o samba, a tradição da música popular, a delicadeza, o ‘império da delicadeza’”. Sempre haverá vidas para levar nossa história adiante e para se opor resolutamente aos fascistas, como Geni, cantada quase no final do espetáculo. Por fim, também me parece produtivo pensar nas diferenças entre as Caravanas de Chico e o Ofertório de Caetano, das opções dos artistas sobre o quê e como representar nosso entorno neste sombrio momento da históra brasileira.

Saindo do show, e tentando organizar esta conversa na cabeça, comentei com minha esposa: que sorte a nossa, amor! Sorte a nossa compartilharmos o lugar, o tempo e a língua com esse grande artista. Com todas as características que levantei aqui, inclusive as críticas, cada vez tenho menos dúvidas da afirmação de que Chico Buarque é o maior compositor popular do mundo, em qualquer tempo. Ok, ok, ok, eu sei que não é Fla Flu (pro Nobel de 2016, Chico é a Seleção de 82), mas acho importante termos essa dimensão de seu trabalho! Chico há muito tempo é uma das vozes artísticas mais coerentes e complexas sobre nosso mundo. Formalmente, tem conseguido avançar, transformar-se e acompanhar as mudanças de sua própria perspectiva sobre as coisas – por exemplo, a “barafunda” que vem aparecendo nas canções e nos romances desde o início deste século. Os músicos que tocam com ele respondem com performances e arranjos cada vez mais preciosos. E, embora não precisasse, segue formulando e intervindo na história do país. Gostaria muito que todo mundo falasse Português para poder entender Chico Buarque de Holanda! Que sorte a nossa!

[1] Cancionista, poeta e professor de Literatura Brasileira (UFRGS).

Foto: Divulgação
Colaboração: Cleverson Ferreira
Catarse Produções Culturais
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Italo Dorneles

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