Vilmar Carvalho / Divulgação


Atuante no Rio Grande do Sul, a diretora porto-alegrense Camila Bauer ganhou uma bolsa, oferecida pelo governo da Noruega, para montar um espetáculo baseado na obra do dramaturgo Henrik Ibsen (1828 – 1906), um dos clássicos do teatro. A proposta do Projeto GOMPA, coletivo criado por Camila em 2014, foi uma das cinco vencedoras da International Ibsen Scholarships, ao lado de projetos de Grécia, Colômbia, Suécia/Noruega (projeto binacional) e Índia. Serão distribuídos, ao todo, 2 milhões de coroas norueguesas (equivalente a R$ 783 mil). Camila e o Projeto GOMPA receberão cerca de R$ 120 mil. O júri de três especialistas avaliou 88 inscrições vindas de 43 países.

Com o título Um Inimigo na Casa de Bonecas – A Voz Invisível e a Voz do Invisível, o projeto brasileiro recorre a duas das mais conhecidas peças de Ibsen – Um Inimigo do Povo e Casa de Bonecas – para abordar a realidade política do país em torno do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e suas consequências para a sociedade.

Camila embarca para a Noruega neste mês para receber o prêmio e apresentar a ideia do espetáculo durante a Conferência Internacional Ibsen em Skien, comuna do país nórdico, nos dias 18 e 19. A montagem será realizada em Porto Alegre, com estreia prevista para julho ou agosto de 2018. A diretora cogita circular com o espetáculo, mas essa possibilidade não está contemplada pela bolsa, que tem como objetivo divulgar a obra de Ibsen pelo mundo.

Leia, a seguir, entrevista com Camila Bauer sobre o projeto:

Como se estabelece a relação entre a obra de Ibsen e a realidade do Brasil hoje?
O Brasil elegeu um inimigo do povo, mais precisamente poderíamos dizer que a mídia criou uma "inimiga do povo". Uma mídia que define como a mulher deve ser: "bela, recatada e do lar". Um país machista, com altíssimas taxas de feminicídio, patriarcal no pior dos sentidos, que só aceita a mulher se for para ser uma boneca, e não a presidente da República. Para mim, o vínculo dessas obras de Ibsen com nossa sociedade brasileira é tristemente atual. A mulher no último século começou a ocupar muitos lugares que antes eram exclusivamente masculinos, mas ainda é muito pouco. A violência contra a mulher é enorme, e eu estenderia isso hoje ao grupo LGBT, assunto que me é muito caro. Tem uma pergunta que sempre esteve viva em mim: o que pode ter acontecido com Nora (personagem da peça Casa de Bonecas) depois de deixar seu marido? É sobre essas hipóteses que quero me debruçar.

Como surgiu a ideia do projeto?
Eu comecei a pensar muito nessas peças no ano passado, quando a Veja lançou o "bela, recatada e do lar" para referir-se a Marcela Temer, enquanto o Brasil assistia ao impeachment da presidenta Dilma – que não se enquadrava em nada no modelo de mulher que a mídia fomentava. As duas abordagens eram coroadas de misoginia referente aos seus corpos, idades, escolhas de vida, para além de toda a questão política envolvida. Lia as reportagens, posts, memes e lembrava o tempo todo de Casa de Bonecas, de Ibsen. Pensava em Ibsen e na ideia de que o Brasil só aceita a mulher se for para ser uma boneca, para viver em uma casa de bonecas, e não como presidente da República. Ao mesmo tempo, a questão da corrupção vinha à tona, e um movimento repleto de panelas e camisetas da Seleção brasileira pedia a queda da presidente, alegando que queriam o fim da corrupção. Um processo votado por um Congresso onde mais da metade dos deputados estava envolvida em casos de corrupção. Dilma havia se tornado a inimiga do povo, um povo que não sabia bem contra o que lutava porque se portava como massa de manobra.

Qual a sua avaliação sobre a atualidade de Ibsen?
Ibsen destaca o papel da mídia na construção de um inimigo comum de modo muito claro, quase perturbador, ao apresentar conflitos de ordem ética em um paradoxo entre os bens públicos e os interesses privados. É absolutamente atual, e os vínculos dessas obras com nossa realidade são, infelizmente, gritantes. A questão complexa para mim é como não dividir, como não polarizar, como não tornar os outros nossos inimigos, repetindo o modelo que criticamos. Um grande desafio.

Embora seja um dos grandes nomes da história do teatro, Ibsen não tem sido muito encenado no Brasil ultimamente. Por que isso ocorre?
Pois é, acho que a dramaturgia do fim do século 19 (Ibsen, Strindberg, Tchékhov) não tem sido tão encenada por aqui ultimamente. Acho que atualmente temos nos inclinado mais à construção de novas dramaturgias, dramaturgias em processos colaborativos e que proponham outros modos de composição. Tem uma questão de linguagem no teatro realista que é um pouco complicada de abordar hoje em dia. Pra mim, é exatamente aí que está um dos grandes desafios: como atualizar a linguagem de Ibsen, como reinventar sua forma.

De que forma você acredita que esse projeto se insere em sua trajetória como encenadora e dialoga com seus interesses?
Eu tenho muito interesse em falar sobre tudo isso que está acontecendo no Brasil. O projeto que apresentei propõe uma adaptação dessas obras mesclando narrativas em terceira pessoa, relatos de história oral, uso de documentos e composições coreográficas para desenvolver uma linguagem que dialogue com nossos interesses estéticos/éticos. Foi um projeto escrito entre um protesto e outro, ao som de helicópteros da polícia e cheiro das bombas de gás que tantas vezes levamos. Me interessa falar sobre a humanidade, sobre como nos posicionamos enquanto indivíduos. Não tanto sobre os fatos em si, mas sobre o que move o ser humano para chegar até os fatos. Trata-se de desconstruir um pouco Ibsen para chegar no que poderia ser sua essência se ele estivesse vivendo hoje, já que foi um grande pensador e reformador de seu tempo. Gosto de imaginar como escreveria Ibsen hoje, sobre tudo isso que está acontecendo e que não está muito distante do que ele trouxe à tona. Para mim, nossa pesquisa se dará no campo da forma, da construção de uma linguagem, por isso a escolha da equipe de criação é decisiva pra mim.


Fonte: Gaúcha ZH

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