Foto: Cláudio Etges / Divulgação 

Depois de algum tempo sem visitar os dois discos do Tambo do Bando, os ouvi e reouvi agora, reunidos no álbum Com o Pé no Galpão e a Cabeça na Galáxia, que comemora os 30 anos de criação do grupo. A música não perdeu um só minuto de sua significação, sua força, sua novidade e atualidade. Em especial o disco de estreia, Ingênuos Malditos, de 1990, é um clássico definitivo da música gaúcha. Coisa raríssima de acontecer, as 10 faixas são ótimas em todos os sentidos, letras, melodias, arranjos, interpretações. Dando o tom incisivo ao conjunto de canções, quase como fosse uma ópera sulista, pela unidade, os versos universais de Sérgio "Jacaré" Metz atingem um nível até hoje não superado na música de raiz rio-grandense. O Tambo surgiu nos festivais nativistas e neles seguiu forçando a barra para cantar seu modo de ver o mundo.

Jacaré, Vinícius Brum, Carlos Cachoeira, Beto Bollo, Texo Cabral, Marcelo Lehmann e Kiko Freitas eram ligados no nativismo mas não simpatizavam com a música regionalista propriamente dita que dominava os festivais. Vindos do Interior, em 1986 criaram o grupo em Porto Alegre e se inscreveram no Musicanto, um festival diferenciado, inovador. Ganharam o segundo lugar com O Bombo da Noite, cuja letra fala da eterna noite do terceiro mundo – melodia de Vinicius, principal parceiro de Jacaré ao lado de Cachoeira. A música está no primeiro álbum, ao lado das também porradas 200 Anos de Solidão ("Nossas cabeças estão rolando", diz a letra), Deixem seus Olhos Fixos ("Nos arames que foi/ peão pendurado/ deixei os olhos fixados") e Terra, de Beto Barros/Beto Bollo ("Mira a crosta em carne viva").

E o que dizer de Ingênuos Malditos ("Chupar sem fim o osso e o aço/ Até que a suástica reluza no horizonte vermelho"), de Coisas de 89, 90, 91... ("Tá todo mundo com insônia na colônia/ Zonzos pela sala, tontos na senzala/ E na varanda o éter de suéter/ Lança um plano pra nação")? O Campeiro e o Gravador, que venceria o Musicanto em 1987, usa o humor apenas na aparência da letra brincalhona e do chote dançante ("Na casa grande um IBM/ E os ranchos numa M"). Enfim: um disco até profético. E cheguei ao fim do espaço sem falar do segundo álbum, de 1992, que tem músicas como Os Ciganos Vão para o Céu e começa com a melhor versão já feita do clássico Os Homens de Preto (Paulo Ruschel), pesada, contundente. O Tambo tinha rock, MPB, latinidade, sem perder de vista o ponto de partida, o RS.

O texto de abertura do encarte é um poema em que Jacaré, em 1993, exorta os parceiros a resistir e fazer mais um disco. Trecho: "Vamos nos expor a uma outra visitação./ Vamos deixar nosso coração caminhar agora./ Eu ouço alguma vaia nos chamar./ Os ingênuos estão mais malditos". O terceiro disco não saiu. Quando Sérgio Jacaré morreu, em 1996, aos 44 anos, pouco depois de lançar Assim na Terra, talvez o livro mais importante de sua geração, o Tambo já tinha se dispersado. Voltaria a se reunir apenas para apresentações esporádicas. A produção do álbum é impecável.

COM O PÉ NO GALPÃO E A CABEÇA NA GALÁXIA
De Tambo do Bando
Álbum duplo, independente, R$ 60 em minuanodiscos.com.br


 Confira as demais notícias da coluna do Juarez Fonseca (foto) no jornal Zero Hora.
 
 
A música única do pernambucano Décio Rocha

Você já ouviu falar em Décio Rocha? Se não, aqui está mais uma chance de conhecer o impressionante compositor, músico e criador de instrumentos que Zeca Baleiro define como "artista único", completando: "Não se trata de clichê, pois quando falo que Décio é único, falo na mesma proporção em que falaria de um Miles Davis, um Hermeto, um Naná Vasconcelos".

Produzido pelo próprio Zeca, Nem Sei, Faz Tanto Tempo, é uma compilação dos quatro álbuns lançados por Décio a partir de 1993 (entre eles a trilha sonora do perturbador documentário Estamira) e comemora 45 anos de carreira. Nascido em Pernambuco, com passagens por SP e Rio, animou muitos bailes, integrou a Banda de Pau e Corda e tocou com um rol de artistas que vai de Nelson Gonçalves a Chico César. Quase inclassificável, com um estilo meio viajante que vai da explosão sonora ao minimalismo, sua música é complexa na simplicidade – e vice-versa. Pensando na Vida, por exemplo, é um country, enquanto Domingos Glaciais tem ares de baião, Janela de Apartamento (com vocalise de Chico César) viaja por uma textura árabe e Pedro, Antônio e João (de Benedito Lacerda, única com letra), é uma marchinha carnavalesca cantada por André Abujamra. Décio toca violões, guitarras, baixos e suas invenções metrola e rechimbau, ao lado de Lui Coimbra (cello), Kastrup (percussão), Adriano Magoo (acordeom) e Hugo Hori (sax), entre outros.

NÃO SEI, FAZ TANTO TEMPO
De Décio Rocha
Saravá Discos, R$ 22 em média; disponível nas plataformas digitais.

Antena

ESSÊNCIA
De Maria da Conceição

Este disco reúne dois artistas que estão à frente de um novo tipo de música regional que ganha corpo na região sul do Estado, preocupado mais com a história, as pessoas, o meio-ambiente, a questão social, do que com cavalos e louvações a um Rio Grande idealizado. Graduada em música na UFPel, professora em Santa Vitória do Palmar, onde nasceu, Maria da Conceição é uma das maiores cantoras gaúchas, já quase um mito em sua região. Jaguarense radicado em Pelotas, Alessandro Gonçalves, autor de todas as canções do álbum (várias em parceria com o brilhante letrista Martim César), tem prêmios em muitos festivais. Ritmos como milonga, valsa e chamamé alimentam canções de impacto como Parceiros da Madrugada, A Rebeldia do Campo, Mulheres Colonas e Milonga para os Olhos do Che. Direção musical, arranjos, violões e outros instrumentos são do bamba Éverson Maré. Entre os músicos, aparecem Carlitos Magallanes e Fernando Leitske. Independente, R$ 14,90 em minuanodiscos.com.br

TODA SORTEDO MUNDO
De Paula Souto

Cantora conhecida na noite paulistana pelo vasto repertório de samba e MPB e pela voz clara e colorida (lembra Ceumar), Paula Souto chega ao terceiro álbum com repertório inédito. Ela é pós-graduada em canção popular. No fim dos anos 1990, estudou na Los Angeles Music Academy, formando na volta um trio de jazz e bossa com o qual passou a percorrer a trilha dos bares – como o Brazileria e o Ó do Borogodó, onde tem shows de lançamento marcados. Para a direção musical, Paula chamou o talentoso violonista Deni Domenico (filho de Guca Domenico, um dos fundadores do grupo Língua de Trapo, que faz participação especial). Com a instrumentação básica de violão, baixo, percussão e sopros, o disco é aberto pelo belo ijexá Mãe do Vento, do gaúcho Márcio Celi. Na toada Uma Canção (Tiago Rocha), outro gaúcho, Samuca do Acordeon. Além da faixa-título, com ares de baião pautados por acordeom e violoncelo, Paula assina outras duas. Merece mais espaço. Independente, R$ 35 no facebook soupaulasou

VIDA DE ARTISTA
De Wanderléa

Desde o fim da Jovem Guarda, no fim dos anos 1960, Wanderléa alterna discos pops e de MPB. Agora mesmo, anuncia um álbum roqueiro para 2017, enquanto divulga este Vida de Artista, com canções de sua conterrânea mineira Sueli Costa. O projeto, formatado depois de shows em Belo Horizonte, com produtores e músicos competentes, é um ¿best of¿ de Sueli nos anos 1970. Desafio: interpretar canções que originalmente foram sucessos com Elis, Gal, Bethânia, Simone, Fafá, Nana Caymmi. Não é pouca coisa, pois a obra de Sueli e parceiros como Abel Silva e Cacaso exige entrega veemente. Para meu gosto, Wanderléa cumpre o papel pela metade. Ante um repertório com Dentro de Mim Mora um Anjo, Vinte Anos Blue, Jura Secreta, Sabe de Mim, Coração Ateu e outras, em vez de explicitar emoção ela prefere ser meio leve, ou seja: sem se comparar. É um modo de ver. A capa do CD mostra a cantora aos 12 anos, o que parece fora de contexto. Nova Estação/Eldorado, R$ 25.


Fonte: Coluna do Juarez Fonseca, no jornal Zero Hora
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