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Jayme Caetano Braun, o ícone pajador do tradicionalismo gaúcho

 Jayme Caetano Braun eternizado no Parque da Harmonia, local que recebe o Acampamento Farroupilha LUIZA PRADO/JC Geraldo Hasse, especi...

 Jayme Caetano Braun eternizado no Parque da Harmonia, local que recebe o Acampamento Farroupilha
LUIZA PRADO/JC

Geraldo Hasse, especial para o JC

Vinte anos após sua morte, aos 75 anos no inverno de 1999, o pajador Jayme Caetano Braun batiza inúmeros locais públicos, dá nome a CTGs de várias cidades (inclusive o de Brasília, capaz de acomodar 1,5 mil pessoas em seu galpão) e até virou estátua em Porto Alegre (com quatro metros de altura, no Parque da Harmonia) e em São Luiz Gonzaga - mas permanece sem sucessor no pódio de sua peculiar modalidade artística: a declamação de versos feitos de improviso, fonte de seu grande prestígio popular.

Muito festejado e pouco estudado, Braun ocupa um nicho especial no mundo cultural gaúcho. Sem tocar instrumento musical, operou principalmente ao vivo, enaltecendo a geografia pampeana, a ocupação do território e a lida nas fazendas. Bem ou mal, foi o porta-voz do mito do macho livre e valente que se derrete por baile, china, cavalo e jogatina.

O músico Demétrio Xavier, 53 anos, o maior intérprete brasileiro do payador argentino Atahualpa Yupanqui, lembra que, fora Braun, o Rio Grande do Sul não tem tradição nessa arte praticada com esmero no Pampa espanhol - e que tem um ramal forte no Nordeste do Brasil, onde são comuns os cantores repentistas. Praticamente solito no Estado, o pajador rio-grandense juntou habilmente, nas mesmas estrofes, um vocabulário diferenciado, rimas ricas e conhecimento sobre a história regional. Além disso, expunha seus versos numa toada lenta que combinava com seu porte altivo, o timbre baixo e um gestual solene.

"Carisma! Ele tinha carisma", exclama o produtor musical Ayrton "Patineti" dos Anjos, que há mais de 40 anos comandou a gravação dos dois primeiros discos de Jayme, acompanhado pelo violão crioulo de Lucio Yanel e o bandoneon de Chaloy Jara. Inesquecível a gravação do longo poema Bochincho, que conta a história de uma briga num "ambiente que não era sério". No final da récita de nove minutos, com os músicos improvisando no rastro da narrativa, o pajador, tomado pela paixão declamatória, deu uma pigarreada forte e parou, deixando no ar a impressão de que pretendia recomeçar do zero. Convicto de que um repeteco nunca sai melhor do que a primeira gravação, Patineti ordenou do fundo do estúdio: "Segue o baile, segue o baile!" Para alívio geral, a gravação chegou ao fim e, como prova da emoção do momento, o pigarro ficou no disco - na época, não havia recursos para reparos técnicos.

Ao lembrar esse episódio, Patineti reconhece que precisa encontrar tempo e paciência para tratar da reedição dos primeiros discos de Jayme Caetano Braun, agora em formato digital. O produtor deu o primeiro passo no último dia 4 de julho, ao encontrar a viúva Aurora Ramos Braun na sessão da Assembleia Legislativa em homenagem aos 20 anos da morte do Pajador. O problema não é técnico, mas burocrático: envolve a negociação dos direitos autorais sobre a obra do Pajador Missioneiro, que teve filhos de dois casamentos e, além de livros, deixou discos em parcerias com diversos músicos, entre eles os missioneiros Noel Guarani (1941-1998), Cenair Maicá (1947-1989) e Pedro Ortaça, além de "estrangeiros" como o argentino Lucio Yanel e o pantaneiro Almir Sater, entre muitos outros.

Aos 64 anos completados no dia 13 de agosto, Aurora Ramos Braun também premedita dar forma ao acervo deixado pelo Pajador. É tanto material acumulado em cadernos, papéis avulsos, fitas K-7 e vídeos (alguns caseiros, outros jornalísticos) que a viúva precisa do engajamento de profissionais capazes de transformar tudo - inéditos ou já gravados - em novos produtos. Além do elétrico Patineti, estão na parada o jornalista tradicionalista Paulo Mendonça, que manifestou interesse em editar em livro as crônicas publicadas por Braun em jornais do interior do Estado; e o cantor Luiz Marenco, que precisa de tempo e inspiração para musicar as dezenas de letras que ganhou do poeta ao longo de 30 anos de amizade. Outro colaborador potencial é o veterano jornalista Juarez Fonseca, que esteve nos bastidores de tudo que se gravou no Estado nos últimos 50 anos.


 Braun gostava de ler, cavalgar e jogar pôquer com os amigos
ARQUIVO JUAREZ FONSECA/DIVULGAÇÃO/JC

A obra de Jayme Caetano Braun é bastante conhecida, mas sua vida pessoal sempre foi mais reservada. Provavelmente ninguém o conheceu tão bem quanto Aurora Ramos Braun, que começou como sua fã na adolescência e terminou como sua viúva. Coube a ela agir como inventariante dos bens deixados por ele. Mais artística do que material, a herança foi dividida entre seus dois filhos e a companheira do final da vida. Ela herdou o apartamento em Porto Alegre, e o filho José Raimundo Jardim Braun, do primeiro casamento dele, ficou com o sítio de Viamão, que o Pajador chamava de "Estância Piraju".

Quanto aos direitos autorais de discos e livros, a divisão também é por três, cabendo uma das partes a Cristiano Ramos Braun, filho de Aurora e Jayme. Assim, tudo de novo que sair de Braun deverá gerar aditivos contratuais ou contratos novos.

Eventuais divergências entre os herdeiros - que las hay - podem ser contornadas à luz da obra do Pajador, que deu mais ênfase à paz do que aos conflitos pela posse do território pampeano, entendido por ele como um condomínio geográfico sem fronteiras cujo denominador comum é/foi o modo de vida campeiro, de a cavalo, cuidando do gado, lavouras e pomares.

Em mais de uma pajada, Braun enalteceu a obra dos jesuítas junto aos índios nas duas margens do rio Uruguai, escapando habilmente da polêmica sobre a dupla identidade hispano-lusa do Rio Grande do Sul. Bom exemplo disso são os versos dedicados a São Nicolau, a "primeira querência do Rio Grande", ponto de penetração em 1626 do padre Roque Gonzalez no que se tornou o território sulriograndense:

"Vai mais de trezentos anos/Se perdendo nas neblinas/ Que as legendárias batinas/ Aportaram a este chão/ Alterando, desde então/As velhas feições da terra/ E abafando hinos de guerra/ Nos sinos da redução.

"Nem se funda o Rio Grande,/Nem o lendário Viamão./ O pago era céu e chão/ Coxilha - Várzea e perau -/ Já o Uruguai dera vau./Numa apoteose bravia,/ E o Gaúcho antenascia/ No velho São Nicolau!"

Na intimidade doméstica, "ele era afetuoso e brincalhão", recorda Aurora, destacando que Braun levava a sério duas coisas: a carreira artística e a militância trabalhista. Desse lado profissional, restou dele uma imagem algo carrancuda, resumida por amigos e conhecidos com palavras típicas do Pampa: caborteiro, empinado, genioso.

Bem a propósito, Braun não era de aparecer socialmente, gostava de ler, cavalgar e jogar pôquer com os amigos. "Ele tendia a transformar tudo em versos", lembra Aurora, cuja longa convivência com o poeta poderia render sua biografia mais completa.

Sobre personagem tão rico há um livro de 110 páginas (O Payador, 2010, Evangraf) escrito por Nei Fagundes Machado, ex-funcionário público que se gaba de ter jogado truco com Braun numa repartição do Estado. Está em fase final de elaboração outra publicação, de autoria do tradicionalista Candido Brasil, 50 anos, presidente da Estância da Poesia Crioula. Ele não conheceu Braun pessoalmente, mas viajou atrás de subsídios de pessoas que conviveram com o pajador. Um dos seus trunfos é o depoimento de Antonio, que foi moleque de recados do bolicho de Jayme no interior das Missões há 70 anos.

Não se brinca com gaúcho na casa dele...

Em 1954, aos 30 anos, Jayme Caetano Braun publicou o primeiro livro, Galpão de estância. No prefácio, seu tio Rui Ramos (1909-1962) comparou-o a Vargas Neto e a Aureliano de Figueiredo Pinto, mas advertiu os leitores: o autor seria ainda "um tourito de sobreano que ainda não perdeu a tabuleta", referência irônica aos bezerros desmamados por meio de um utensílio de madeira que os impede de abocanhar as tetas da vaca.

Amigão do tio deputado falecido em acidente aéreo durante a campanha de 1962, o Pajador foi animador de comícios de candidatos do PTB, incluindo Leonel Brizola. Na eleição de 1962, o próprio Jayme concorreu a deputado estadual, mas não se elegeu. Decepcionado com a votação, não abandonou os palanques onde, rebelde desbocado, atacava os conservadores e reclamava um futuro melhor para "os livres". Um dos seus motes favoritos era a reforma agrária.

Nos anos 1970, quando entraram na moda os festivais de música nativa, esteve em Uruguaiana, convidado pelo produtor musical Ayrton "Patineti" dos Anjos, o repentista pernambucano Oliveira de Panelas. Num intervalo das disputas da Califórnia da Canção, armou-se um desafio de Oliveira com Braun, que estava rigorosamente pilchado. Era apenas para entreter a plateia, mas o jovem pernambucano, 22 anos mais moço do que o gaúcho, "sentou-lhe" a pua dizendo que sua bombacha daria pano para fazer várias saias. Surpreso, o pajador respondeu que em casa alheia não se brinca com os costumes locais, porém, se o visitante quisesse, qualquer gaúcho poderia lhe mostrar o conteúdo de uma bombacha. O "debate" foi interrompido, a prioridade era o festival...

Nos final dos anos 1980, Jayme frequentava La Cueva, bar do seu amigo e parceiro, o violonista argentino Lucio Yanel. Ficava na Cristóvão Colombo, defronte à fábrica da Brahma (hoje, Shopping Total). Uma noite apareceu um borracho que, vendo Yanel todo de preto, o comparou ao Zorro. Em tom ofensivo, lançou algumas provocações ao dono da casa. Temendo um confronto letal, o Pajador levantou-se de sua mesa e foi ao microfone: "Xavier, me faz um 'costadinho'", pediu ao aprendiz Demétrio Xavier, que tocava um violão crioulo emprestado. Numa pajada serena, em poucos versos o veterano missioneiro estava de rebenque na mão, puxando as orelhas do intruso sem educação. Acuado pela retórica do poeta e o silêncio dos presentes, o borracho pagou a conta e foi embora sem olhar para trás.
 
O afilhado artístico do poeta

 Luiz Marenco iniciou na música pelas mãos de Braun
DANIEL MARENCO/DIVULGAÇÃO/JC


Com mais de 20 discos gravados em 30 anos de carreira, o músico Luiz Marenco se orgulha de possuir uma trinca de CDs dedicados a parcerias com Jayme Caetano Braun. "Quando cheguei a Porto Alegre disposto a ser cantor, procurei Jayme e ele praticamente me adotou como afilhado artístico", diz o artista, que passou a adolescência na fazenda do avô em Quitéria, no interior de São Jerônimo. Era o final dos anos 1980, e ele sonhava ser o novo Noel Guarani, o primeiro parceiro do pajador missioneiro.

Dizendo-se "bruxo", Braun começou entregando a Marenco os poemas Extraviado e Destinos, logo transformados em canções do disco de estreia Luiz Marenco canta Jayme Caetano Braun. Como cantor, coube ao ex-capataz da estância avoenga defender as composições da dupla em festivais da canção nativa, o grande canal da música regional sulina dos anos 1970 a 1990. Como havia uma carreirada musical por semana em cidades do interior, logo a parelha Marenco-Braun levantou o troféu do I Chamamento do Pampa (Passo Fundo, 1990) com Charla de domador ("Nesta carpeta onde se joga a vida/ não vendem fichas pra jogar de graça").

De festival em festival, foram nascendo canções e produzidos os discos que fizeram de Marenco o líder de um grupo de oito músicos que faz shows não só no Rio Grande mas em outros estados onde gaúchos foram plantar soja, o atual carro-chefe do agronegócio brasileiro. Nessas viagens artísticas, Marenco aproveita para fazer contatos políticos, pois é deputado estadual (PDT) de primeiro mandato, eleito em 2018 com o apadrinhamento de Marlon Santos, deputado federal e médium ativo em Cachoeira do Sul, onde foi prefeito.

A parceria com Braun ainda tem chão. Em seus últimos anos de vida, na década de 1990, o pajador passou às mãos de Marenco diversas letras que estão à espera de arranjos musicais. "Pretendo fazer o CD dos inéditos do Jayme", diz o músico, consciente de que parcerias com mitos exigem não só criatividade musical, mas habilidade política e paciência de campeiro.

Passadas duas décadas da morte do "bruxo", Marenco se sente à vontade para falar do panorama do pajadorismo gaúcho. "Hoje há por aí muita gente se intitulando pajador", diz, "mas quando Jayme era vivo ninguém cantava de galo nesse terreiro".
 
A vida no IAPI

Para convencer Jayme a largar a vida de bolicheiro, o nacionalista Rui arranjou-lhe um emprego no IPASE, o instituto assistencial precursor do INSS. De muda para a capital do Estado, foi morar num apartamento da Vila IAPI com a mulher e os dois filhos. Em sua carreira como funcionário público, chegou a diretor da Biblioteca Pública do Estado, nomeado pelo governador Leonel Brizola. Como poeta, engajou-se no movimento liderado por Barbosa Lessa e Paixão Cortes.

Como não freava seus ímpetos verbais, Jayme comprava brigas gratuitas, até porque muitos ouvintes não compreendiam suas metáforas rebuscadas, ou se ofendiam com certas tiradas suas, sempre inclinadas para a vertente trabalhista, entre elas o direito a terra, pão e liberdade.

Sustentou por 15 anos um espaço no programa de Flavio Alcaraz Gomes, aos sábados de manhã na Rádio Guaíba. Era o Brasil Grande do Sul, no qual fazia uma resenha em versos de notícias do jornal. Em uma ocasião, atritou-se com o parceiro Antonio Augusto (Nico) Fagundes, autor da letra do Canto Alegretense.

Maragato até debaixo d'água, Nico escutava o programa quando se molestou com um dito do pajador e foi tirar satisfação. Os dois por pouco não chegaram ao pugilato físico. Ficaram de mal por muitos anos. E nunca teriam feito as pazes se Fagundes não tivesse tomado a iniciativa. Em nome do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, do qual era diretor, indicou "o chimango inimigo" para receber a Medalha Simões Lopes Neto, prêmio anual do governo gaúcho a vultos da cultura crioula.

Já mal de saúde - na capa da gaita, como diz a voz do povo -, um Braun setentão chegou ao Palácio Piratini apoiado no braço da companheira Aurora e ficou quieto num canto do salão Negrinho do Pastoreio. Incentivado por um amigo do peito de ambos, Nico se aproximou e comentou o episódio em que os dois se estranharam. "Vamos deixar isso pra lá, eu quero te dar um abraço", disse. Teso como pica-pau em tronqueira, o trovador missioneiro fez que sim e acolheu o amigo no gesto de paz.

O bolicheiro fazedor de versos

 Jayme Caetano Braun faleceu em 1999, aos 75 anos, em Porto Alegre
ESFERA EDITORA DE ARTEA/DIVULGAÇÃO/JC


A mais preciosa fonte de informações sobre Jayme Caetano Braun é sua prima-irmã Danci Caetano Ramos, que se criou na mesma fazenda em que ele nasceu e trabalhou como peão no interior de São Luiz Gonzaga. Aos 83 anos, normalista formada em Cruz Alta e pedagoga diplomada pela Pucrs, ela guarda na memória e recita sem esforço inúmeros poemas dele. Sabe, inclusive, "versos perdidos", isto é, sabidamente feitos por ele, de improviso, mas não registrados em nenhum dos seus discos ou nos dez livros publicados entre 1954 e 2002. "O que foi publicado e gravado é apenas uma parcela do que ele criou", afirma, lembrando que há, no Rio Grande, muita gente que recita versos dele sem saber que são de sua lavra. Trata-se, portanto, de um caso raro de transferência da criação pessoal para a memória social.

Acostumada a palestrar, Danci conta que Jayme foi o segundo de seis irmãos, filho do professor Aloysio que, recém-chegado de Porto Alegre para dirigir o colégio de São Luiz, se apaixonou por uma aluna chamada Euclides Ramos Caetano, a Crida. Mesmo contra a opinião da maioria dos familiares, que a achavam muito nova para casar - ela, 16 anos; ele, mais de 30 -, a união se fez com a bênção da mãe da moça. Além de Jayme, a prole do professor e da ex-aluna compôs-se de quatro meninas: Maria Florinda, Terezinha, Judite e Zélia. O caçula Pedro Canísio foi o primeiro a falecer. De macho sobrou o poeta.

Desde criança, Jayme mostrou gosto por versos, rimas e trovas, no que puxou pelos Ramos, de origem espanhola (os Caetano são portugueses). Faz parte da tradição familiar um rosário de histórias sobre versejadores que gostavam de impressionar parentes e visitas com quadrinhas tiradas da memória ou feitas no momento. "Vitória, mãe de Laurindo Ramos, meu avô e de Jayme, era analfabeta, mas só falava fazendo versos", conta Danci, ela própria autora de 10 livros de poesia. De relancina, cita ainda uma tia-avó chamada Gelda Ramos, pajadora de respeito na fronteira.

A convite do tio Danton Ramos, Jayme foi morar na Fazenda Timbauva, a 48 quilômetros da cidade. Ali, em pleno pampa missioneiro, trabalhou e se divertiu ao lado das três primas menores (Terezinha, Gelsa e Danci) e do caçula Juca Ramos, 17 anos mais novo. Aos 20 anos, já seguia firme na trilha da poesia campeira e não deixava assunto sem comentário, quase sempre fazendo rima. Com sua estampa de galo, até as primas cantava, para alvoroço das tias, no vaivém das fantasias.
Em 1947 casou com Nilda Aquino Jardim, filha de "um comerciante forte" de São Luiz. No que parece ter sido um arranjo de família para que assentasse a cabeça, virou bolicheiro de campanha na Serrinha, um distrito retirado de São Luiz. O balcão da venda foi o altar em que aprimorou o mistér poético. Entre seus admiradores, o maior foi seu tio Rui Ramos, promotor público em Alegrete eleito deputado federal do PTB em 1950.

O Pajador por Fischer

Em 1999, o professor Luís Augusto Fischer escreveu, por encomenda do Instituto Estadual do Livro, um estudo sobre Jayme Caetano Braun - abaixo, grafado JAIME. O ensaio circulou apenas na revista Desenredo, da Universidade de Passo Fundo. A seguir, um trecho em que Fischer enquadra Braun no panorama da literatura brasileira:

"Tomada a obra de Jaime Caetano Braun segundo o critério das mais altas realizações da poesia brasileira - Carlos Drummond e João Cabral, acima de Manuel Bandeira, Cecília Meirelles, Mário Quintana e tantos outros -, fica evidente que sua poesia é menor, não alcançando a qualidade já realizada pelos maiores, seja porque Braun se contenta com formas mais singelas e mais conservadoras, quando a regra da alta poesia moderna é a sofisticação e a insatisfação formal, seja porque os temas mais exigentes da vida da segunda metade do século 20, nervo da poesia dos maiores, estão praticamente ausentes de sua criação (...) Mas justamente em função do que antes vinha sendo analisado, a criação poética do autor não se mede apenas por essa régua, ou antes, não se valida por esse parâmetro. Seu ambiente não é o da alta poesia
A poesia de Jaime, quanto à forma, é totalmente conservadora. Pratica regularmente os metros curtos, de cinco ou sete sílabas, em quadras, sextilhas, oitavas e décimas. Sua sintaxe é sempre linear, isto é, não se encontram muitas inversões de ordem na frase, e além disso a índole da sintaxe é expositiva e clara, isto é, não se encontram momentos de super-concentração de significados ou passagens obscuras. Sempre rimadas, as poesias lidam com o padrão culto da língua portuguesa, mas com uma forte marca de vocabulário regional gauchesco.
Por isso, caso fôssemos contrastar a poesia de Jaime aos melhores momentos da poesia culta escrita da língua portuguesa, repetindo, o resultado indicaria para ela uma posição secundária. No entanto, é de ver que o modo específico de concepção e circulação de sua poesia é bem outro, e neste contexto ela ganha força. Mesmo sem evocar uma antiga linhagem que poderia dar relevo a ela - a linhagem dos trovadores mais ou menos espontâneos, a linhagem dos desafios, a linhagem mais específica ainda da payada -, e mesmo sem considerar as muitas proximidades entre ela e aquela modalidade de poesia que está no berço da canção popular, brasileira ou não, a produção poética de Jaime Caetano Braun tem estatura apreciável para qualquer leitor".

Discografia

    Payador, Pampa Guitarra (1976) - com Nel Guarani
    Payadas - com Lucio Yanel e Chaloy Jara
    A Volta do Payador (1988)
    Poemas Gaúchos (1993)
    Acervo Gaúcho (1998)

*Geraldo Hasse é jornalista. Nascido em Cachoeira do Sul, formou-se em Pelotas e passou a maior parte da vida profissional em cidades do Sudeste. Escreveu uma dezena de livros sobre agricultura, economia, história e meio ambiente. É autor de uma biografia sobre o escritor e professor Darcy Azambuja (JÁ Editores, 2005).


Fonte: Jornal do Comércio

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