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Festival da Barranca, um marco da música regional gaúcha

Músicos Tadeu Martins e Elton Saldanha compartilham a hora do chimarrão à beira do rio Uruguai EMILIO PEDROSO/DIVULGAÇÃO/JC Ra...


Músicos Tadeu Martins e Elton Saldanha compartilham a hora do chimarrão à beira do rio Uruguai

EMILIO PEDROSO/DIVULGAÇÃO/JC


Rafael Vigna, especial para o JC *

Sentado, ao entardecer, na varanda de casa, Farelo Lima mateia no primeiro dia útil da semana. Mas esta não é uma segunda-feira qualquer. O domingo passado, 21 de abril, marcou o fim de mais um tradicional encontro à beira do Rio. A mirada firme daquela figura humana de pele vermelha, olhos azuis e cabelos durados, já esbranquiçados pelo tempo, se detém nas águas - nem sempre mansas - que dividem o Brasil da Argentina, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul.

Ali, no pátio da casa de alvenaria, onde vive há 24 anos, em um tipo de autoexílio, num pesqueiro, localizado a 15 km do município de São Borja, cerca de 300 homens comungaram de um ritual que se repete a cada Semana Santa. Na extensão de pouco mais de dois hectares de terra vermelha e mato, aconteceu a 48ª edição de uma das manifestações artísticas e culturais mais singulares, emblemáticas e misteriosas da América Latina: o Festival da Barranca.

Oficialmente, desde quinta-feira, dia 17, os convidados do Grupo Amador de Artes Os Angüeras passaram a integrar um Universo Paralelo, guiados por música, poesia e amizade. Há quem chegue antes, ainda no domingo anterior ao da Páscoa. Desde então, as copas das árvores começam a demarcar um verdadeiro vilarejo de barracas que se forma às margens do Rio Uruguai.

Farelo participou de 42 encontros como este. A baixa estatura, a voz rouca, porém expansiva, não escondem a imponência do homem que realizou aquele que pode ser considerado o sonho de grande parte dos integrantes do festival. Filho de pai violeiro e mãe cantora de bolero, Farelo fez um trato consigo mesmo. Trabalharia até os 50 anos de idade e depois escolheria um local para viver próximo ao rio. Homem de palavra, cumpriu à risca a promessa.

Na área cedida por uma agroindústria da cidade para a realização do Festival, ele reside retirado. Admirador de Atahualpa Yupanqui, aos 73 anos, Farelo lembra de uma noite em que conheceu um dos principais expoentes da música latino-americana.

"Eu vi o homem velho passando numa Califórnia da Canção, em Uruguaiana, e gritei: Dom Atahualpa! Ele me recebeu no camarim. Estava 'gerveando' um mate com um porongo 'véio' de alumínio. Me deu prosa porque eu era guri novo, mas já conhecia música. Lá na Bossoroca, onde fui criado, sempre busquei na milonga, no bolero e no tango argentino o que era bom pra tosse. Aquele era o meu chão e, naquele dia, o Atahualpa me confessou que a música mais simples e espontânea é a que o 'pueblo' mais capta", recorda.

Personagem de inúmeras histórias como essa, Farelo absorveu os ensinamentos de Dom Atahualpa, personificou a Barranca e a transformou em parte de seu cotidiano. Menos de 48 horas após o encerramento do evento, em 2019, ele protege as sobras de lenha com uma lona, pensando em guardá-las para o ano seguinte. É que, dentro da sua rotina singular, todo dia é dia de Barranca.

Figura carimbada do Festival desde o final da década de 1970, Elton Saldanha considera Farelo "o guardião do templo". Vencedor de inúmeras edições, Saldanha, que durante muito tempo também rivalizou "harmonicamente" com o parceiro de longa data o Troféu Qua-Qua - uma premiação de caráter humorística e teatral sobre fatos ocorridos no acampamento -, ainda hoje tenta decifrá-lo.

"A Barranca nos externa um convite numa liberdade tal, que nos sugere sempre o inusitado. É um evento nada previsível. A roda de música que surge, nasce dela própria. O sujeito está tomando um mate, larga a cuia e escreve um poema que poderá ser lembrado por anos dentro da nossa cultura. Talvez o grande mistério seja dado pelo fato dela ser regida por uma manifestação de arte tão espontânea e natural que ninguém consegue imaginar o que aquele dia vai nos resguardar. Não se trata só de música, é uma manifestação que flui. Não tem estilo, nem regra, que não seja a convivência cordial entre os barranqueiros", comenta, enquanto ao fundo se ouve uma tertúlia formada por mais de 10 músicos de bombacha que tocam sambas de Adoniran Barbosa.


Um território que emerge a cada Semana Santa

Grupo Amador Os Angüeras organizou cavalgada em direção ao pesqueiro
/EMILIO PEDROSO/DIVULGAÇÃO/JC

Muito já foi dito e escrito em teses de mestrado e artigos sociológicos sobre as peculiaridades do Festival da Barranca. No entanto, "Um comício de espíritos", acepção de autoria do jornalista, poeta, compositor e líder do Tambo do Bando, Sérgio "Jacaré" Metz, é uma das resoluções mais aceitas.

Já houve quem a definisse como um país imaginário. De fato, os habitantes deste condado, iluminado pela lua cheia, a cada Semana Santa, na costa do rio Uruguai, em São Borja, são autoproclamados "Barranqueiros".
O território é frequentado pelos principais nomes da música regional gaúcha e também alguns anônimos. O país possui até mesmo um Banco Central, responsável pela emissão da moeda corrente no local. O "manduca", assim chamado em homenagem a Cláudio Oraindi Rodrigues, primeiro jurado do festival, é lastreado em arte e convivência, mas sempre indexado ao real.

Existe também um dialeto próprio. "Barbicacho" é o chato, inconveniente. "Trago" significa bebida. Algumas palavras concluídas em "ú" são substituídas pela terminação em "i". "Pueblo" é São Borja, "guevo" é "ovo" e as brincadeiras verbais entre os participantes são chamadas de "pulha".

As províncias do mapa são os acampamentos que se formam nas comarcas menos ermas da costa do rio Uruguai. Tem a Celva, a Portelinha, os Costeiros e tantas outras. Ali, por 96 horas - que mais parecem dias - residem artistas em volta do fogo de chão. Acampados estão músicos, cantores, poetas, declamadores e instrumentistas, que, a cada ano, ajudam a escrever mais uma página deste livro aberto chamado de Festival da Barranca.

Convidado a participar, assim como todos os governadores do Estado, Olívio Dutra atendeu ao chamado em 1999, em seu primeiro ano de mandato. Desde então, é um frequentador assíduo. De bombacha, boina e mala de garupa à tira colo, ele se sai um exímio declamador. No entanto, muitas vezes, escolhe autores menos ligados à sua imagem missioneira.

Não é raro ouvi-lo dizendo algum poema de Castro Alves ou Carlos Drummond de Andrade no palco principal ou no sábado, quando acontece uma reunião de declamadores e contadores de causos no acampamento do grupo Costeiros. Segundo ele, a Barranca é um dos pontos de "irradiação" da cultura latino-americana.

"Aqui temos esse rio de tantas histórias que não separa, mas aproxima, as culturas. Desfrutar deste momento é se encontrar com raízes diferenciadas com traços da formação gaúcha. Penso que não poderia perder a oportunidade de uma vez convidado voltar a participar. Nasci nas Missões e desde a infância ouvi os sons, as músicas, as lendas e a linguagem deste recorte do mundo. Antes de receber o convite já tinha a Barranca e a obra do Rillo muito presentes em mim", revela.

Dutra conta que ter ido pela primeira vez é uma deferência que os governadores têm, mas que aceitou participar não pelo cargo que ocupava, mas sim porque acompanha as manifestações da América Latina: "E posso dizer que este festival promove o intercâmbio artístico sem que se percam as identidades".

Neste ano, Pedro Ortaça apareceu de surpresa no evento. O intérprete, que não ia à Barranca há duas edições, subiu no palco enquanto o júri definia os vencedores da mostra competitiva, já na madrugada de sábado para domingo de Páscoa. Fazendo o show de encerramento, levantou o público com Timbre de galo.

A evolução e as raízes da manifestação cultural
Vinicius Brum e Luiz Carlos Borges, que certa vez tocou gaita por 48 horas
/EMILIO PEDROSO/DIVULGAÇÃO/JC

Quase meio século depois de sua criação, o Festival da Barranca segue fiel às bases fundadas em 1972 pelos idealizadores Apparício Silva Rillo e José Bicca. E isso, nos tempos atuais, gera algumas polêmicas. A principal é a não participação de mulheres. O fato é justificado pela precariedade da infraestrutura de banheiros e acomodações. "Não teríamos condições de bem recebê-las", justifica Miguel Bicca, o único dos fundadores ainda vivo.

Também há quem o chame de "elitista" e "fechado". Já existiram edições com quase 700 participantes, porém, segundo os organizadores do Grupo Os Angüeras, é inviável realizar o encontro com mais de 300 pessoas. Os números comprovam a tese. Em três dias de evento, foram consumidos 300 kg de carne de gado, 250 kg de carne de ovelha, 185 kg de peixe, 90 kg de arroz, 50 kg de charque e mais de 2 mil ovos no café da manhã.

Em 1982, ano de comemoração do tricentenário de São Borja, o festival foi aberto ao público e ocorreu em praça pública. Na época, Miguel Bicca foi o vencedor com a letra de Indagações. O segundo lugar ficou com Antônio Augusto Fagundes, o Nico, que, naquela ocasião, compôs Origens, até hoje a música tema do Programa Galpão Crioulo, considerado um marco da difusão da cultura do Rio Grande do Sul.

Oficialmente, junto com a Califórnia da Canção Nativa, o Festival da Barranca é o grande divisor de águas na música regional gaúcha. Segundo Miguel Bicca, até o início da década de 1970, a música era bastante influenciada por fatores externos à cultura.

Trata-se, portanto, do mais antigo festival ininterrupto do Estado e segue responsável por incitar a parceira e o encontro entre os artistas regionais. Isso em razão do modelo adotado desde a primeira edição, quando, despretensiosamente, um grupo de amigos resolveu fazer uma competição de músicas durante uma pescaria.

Todos os anos, uma comissão julgadora é formada. O tema é definido e apresentado na noite da Sexta-feira Santa. No Sábado de Aleluia, as canções são compostas e ensaiadas. Em apenas 24 horas, os intérpretes e instrumentistas sobem ao palco para defendê-las. Desta dinâmica, que prima pela espontaneidade, nasceram muitas obras e parcerias.

Diferentemente do que acontece em mais de 30 festivais oficiais, na Barranca não há premiação em dinheiro. As músicas, nascidas do modelo adotado desde a criação do evento, permanecem inéditas. Por isso, estão aptas a serem inscritas em festivais do chamado "calendário oficial".

O fato fez com que, ao longo dos anos, muitas das canções defendidas durante a Barranca, vencedoras ou não, acabassem sendo premiadas em outras competições do Estado. Aliás, a própria Barranca influenciou a criação de pelo menos uma dezena de festivais com a mesma sistemática. Exemplo disso são a Taipa em Uruguaiana e o Costeiros de Santa Rosa.

Vinicius Brum, um dos vencedores contumazes dos anos 1990 e início dos 2000, afirma que a Barranca é um Universo Paralelo. Integrante do Tambo do Bando, banda de contestação ao movimento tradicionalista, surgida na década de 1980, ele recebeu, em 1988, o rabisco de Alma de poço, assinada por Tocaio Ferreira.

No ano seguinte, depois de musicada, a letra abocanhou um dos festivais e se credenciou a concorrer no Eco dos Festivais, que reunia todos os vencedores do ano para definir a melhor música do circuito, inclusive levando o troféu daquela edição. Histórias como essas, de músicas e parcerias nascidas na espontaneidade das rodas do acampamento, não faltam.

Outro diferencial é que não há regra escrita e a rigidez das normas do Movimento Tradicionalista não encontra voz por ali. Por certo, vaneras, chamamés e milongas predominam, mas não é difícil encontrar influências do samba, da Bossa Nova, da MPB e até mesmo do rock nas músicas inscritas. Para Miguel Bicca, fundador do Festival, a mostra artística não passa de uma brincadeira, pois não há competição, e sim um intercâmbio de artistas que constroem parcerias, muitas delas duradouras.

Abraço foi o tema de 2019
Vencedor de diversas edições, Elton Saldanha concorreu novamente no festival em 2019
EMILIO PEDROSO/DIVULGAÇÃO/JC

A 48ª edição do Festival da Barranca se encerrou na madrugada do sábado de Aleluia para o domingo de Páscoa. Neste ano, cerca de 300 pessoas participaram do evento, promovido pelos Angüeras, e o tema proposto pelo júri aos compositores, na noite de sexta-feira, foi Abraço.

Ao todo, 45 letras foram inscritas. Depois de passarem por uma triagem, a fim de garantir tempo hábil para as apresentações, 20 canções puderam ser defendidas pelos cantores e instrumentistas, na noite de sábado, no palco do festival. A vanera missioneira Num abraço de cordeona, de João Malheiros, contou com a gaita de oito baixos de Desidério Souza e o violão de Diego Müller para levar o troféu Apparício Silva Rillo.

A milonga Junta, com letra, música e interpretação dos irmãos Lucas e Ciro Ferreira ficou com o segundo lugar. Sorrisos que abraçam, de Silvio Genro e Dilson Weber, interpretada por Alencar Costeiro, musicada por Marcos Robalo e Flávio Sartori, foi uma das mais aplaudidas e abocanhou o terceiro prêmio. Ângelo Franco, com No leito da comunhão, exauriu o tema em seus diversos aspectos e foi o merecedor da distinção Sérgio Jacaré Metz como a melhor letra do Festival.

Há outro reconhecimento bastante caro aos Barranqueiros. Desde que Luiz Carlos Borges tocou gaita por 48 horas consecutivas em uma edição ocorrida nos idos da década de 1980, o músico mais ativo nas tertúlias que se formam à beira do rio é agraciado com o troféu Cigarra do Acampamento. Em 2019, o prêmio foi concedido a Sergio Rojas. Emocionado, o compositor e instrumentista lembrou os tempos de infância, quando ele e amigos capturavam cigarras e competiam com o objetivo de ver qual delas cantava por mais tempo.

"Com todo respeito, acho que sou merecedor deste título há muito tempo", brincou Rojas, que é reconhecido por ter feito parte da turnê brasileira de Mercedes Sosa, nos anos 1980, e mantém em sua obra influências latino-americanas.

Ainda concorreram composições de Elton Saldanha, Tadeu Martins, Rafael Ovídio, Pirisca Grecco, Carlos Cachoeira, entre outros. Este ano, além da já tradicional Caravana da Barranca, aberta ao público, que aconteceu na quinta-feira 17 de abril, no Centro Nativista Boitatá, o Grupo Amador de Arte Os Angüeras organizou uma cavalgada. Cerca de 20 cavaleiros se reuniram na sede do grupo e partiram em direção ao pesqueiro, onde foram recepcionados com música e aplausos.

Veja os vencedores do 48º Festival da Barranca, CLICANDO AQUI.



Eterna presença de Rillo, Bicca e Angüeras
Pirisca Grecco gravou disco que revisita a obra de Rillo
EMILIO PEDROSO/DIVULGAÇÃO/JC

Fundado em março de 1962, com atuação permanente nos campos da música, do teatro, da literatura regional e da pesquisa de folclore, o Grupo Amador de Arte Os Angüeras surgiu da reunião de Apparício Silva Rillo e José Bicca, já falecidos. O nome de origem Guarani "Angüera" significa "espírito que volta" ou "alma que se devolve ao corpo".

A primeira impressão pode parecer estranha, mas logo se torna compreensível. A lenda, transcrita por Simões de Lopes Neto, indica que o índio "Angüera", antes triste e calado, se tornou cantador e tocador de viola, depois que os padres das Missões o batizaram com nome de "Generoso". Assim, na mitologia missioneira, "Angüera" pode ser considerado o patrono da música e da alegria gaúcha.

O grupo, atualmente, presidido por Mario Canellas, até hoje é responsável pela organização do Festival da Barranca. Além disso, possui uma sede própria, com extensa área verde, e é responsável pela manutenção do Museu da Estância, em São Borja - cidade que surge do primeiro dos Sete Povos das Missões.

Fundado em 1982, ano em que o município completou o tricentenário de fundação histórica, o museu - outra contribuição de Rillo e Bicca - é especializado em Ergologia Campeira, termo derivado do grego "érgon" (trabalho), "logos" (tratado) e "ia" (parte da Etnografia Cultural que trata da herança material dos povos), neste caso, as fazendas da região das Missões e da Fronteira do Rio Grande do Sul.

Apesar da ausência física da dupla idealizadora, ainda há quem os procure em obra, canto, verso e legado, como Pirisca Grecco. Ele, que não conheceu o poeta em vida, gravou em 2015 o disco Vidro dos olhos, em que revisita a obra de Rillo. Grecco lembra que sua primeira música feita em uma Barranca dizia "do sentimento que falo, sei que não devemos chorá-lo, devemos Rí-lo", em um trocadilho com o nome do autor.

"Sinto que o Angüera quer uma sucessão, permite e estende o tapete. Essa abertura de cortinas que o tempo nos dá é que reforça a nossa vinda a cada ano. Estamos aqui atrás de um verso, do espírito Angüera, das nossas origens. É um festival de arte para amigos em que Rillo é esteio. Apesar de o mato estar aqui nos 365 dias, na Semana Santa encontramos um livro aberto esperando para ser escrito", define o compositor da nova geração.

* Rafael Vigna é formado em Jornalismo pela Pucrs. Possui MBA em Mercado de Capitais pela BMF Bovespa. Atuou como repórter on-line e de Economia do Jornal do Comércio de 2009 a 2016. Atualmente reside em São Borja, onde atua como repórter do Jornal Folha de São Borja e diretor de Jornalismo das Rádios Fronteira FM e Cultura AM.


Fonte: Jornal do Comércio

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