O Gaúcho da Fronteira, renomado e genial expoente da regionalidade artística gauchesca, entre as letras e melodias do seu repertório, tem u...
O
Gaúcho da Fronteira, renomado e genial expoente da regionalidade
artística gauchesca, entre as letras e melodias do seu repertório, tem
uma composição simplificada e popular denominada A utilidade do dedo.
Mais do que o aspecto espirituoso e burlesco, a letra nos propõe pensar
sobre, como ele mesmo diz, "as tantas utilidades que, na vida, têm os
dedos". Bueno, "no escuro, primeiro se leva o dedo para procurar
claridade"; "...p´ra tocar violão e gaita...", além de outras
lembranças oportunas do Gaúcho, mas nem sempre contempladas pelo
pensamento contextual e globalizado. Escaparam - e não seria diferente
- abordagens como a datilografia e a digitação ou as modernas telas
tecnológicas da sensação tátil, tipo IPOD e IPAD, que nem existiam na
época da gravação daquele seu sucesso musical.
Uma antiga fita cassette, fita magnética para gravar áudio inventada na década de 60, que eu encontrei por acaso numa dessas reviradas de gaveta no final de semana, fez-me recordar da participação juventudista e o próprio uso e desuso de imposição indefesa ante a modernidade. Aquela fita cassette, com seus dois carretéis, também foi vitimada por isso.
A questão essencial desta recorrida é a de que, não apenas objetos como esses, ficaram ultrapassados pela ansiedade evolutiva. Como se permitisse dizer, as pessoas foram praticamente objetificadas e, decorrentes disso, receberam a classificação de obsoletas. No CD Paixão em Família, há um poema em que eu abordo um pouco disso: Uma Oração pela Paz. Se quisermos ir logo adiante podemos, sem grandes esforços, identificar que até algumas instituições mais tradicionais igualmente vem sendo atacadas, desmontadas, destroçadas e forçadas a se tornarem objetos, quem sabe no intuito de serem descartadas e desprezadas por desuso ou estarem obsoletas.
É o ser humano doente, sem conseguir ser família. Pela paz não há vigília que acorde essa gente. Legiões de pessoas carentes, órfãos de fé e de alegria são reféns da hipocrisia, do poder do braço forte, ditando penas de morte para impor sua soberania. Estes versos, que tiveram o acompanhamento musical do Arthur Bonilha e a produção artística do Beto Caetano no CD que eu referi e que me é muito afetivo pela participação da família de hoje, quer remeter ao compromisso - que é de todos - e que precisa ser mais bem compreendido pelo universo dito tradicionalista, diante de tantos gaúchos de nascimento ou adoção esparramados pelo mundo.
Se o tradicionalismo é a tradição em movimento, como se aprende em vários escritos disponíveis na literatura regionalista gaúcha, inclusive no livro do Seu Paixão "O que é MTG: questionamentos e perspectivas"(2004), precisamos examinar com critérios mais específicos e criteriosos o que deve mesmo ser descartado e rotulado de não ter mais utilidade. Este mesmo livro já alertava de que "o inimigo de hoje não grita mais na coxilha, mas está junto de nós para destruir nossos valores..."(PAIXÃO, O que é MTG, 2004). Podemos ir a 1912 e aprender com Cezimbra Jacques: "Abraçar sem reservas, imprudentemente, sem meditação, o que nos vem de fora, além de sermos qualificados de volúveis, estamos cavando a nossa própria ruína" (JACQUES, 1912).
"O velho - no dizer de Paulo Freire - que preserva sua validade ou que encarna uma tradição, marca uma presença no tempo e continua novo"(FREIRE, 1998). Por isso, vou de volta ao encontro do Seu Paixão: "Alerta companheiro! A propaganda, os falsos valores, os maus comunicadores e os modismos não podem esmagar a cultura espontânea que brota do seio deste povo. Coerência e gauchismo são predicados que combinam".(PAIXÃO, O que é MTG, 2004, p.34)
Resta citar a esperança e a confiança no porvindouro, apostas da visão prospectiva do educador, ambientalista e pesquisador francês Jean-Michel Cousteau: "Os melhores investimentos que podemos fazer hoje são nos jovens, eles são como esponjas e são os futuros tomadores de decisão, e farão melhores escolhas do que nós fizemos"(COUSTEAU, Bens & Serviços, 2010, p.20).
Recorro, por derradeiro, ao examinar cuidadoso que aponta: "O carrapato no lombo do boi, o pernilongo sugando o homem e este matando a natureza. A vaidade e o personalismo precisam ser tocados com rédea curta e mantidos na ponta da picana do carreteiro. Todo o cuidado é pouco. O bom senso é recomendável !"(PAIXÃO, O que é MTG, 2004, p.25). Diante dos desafios do mundo, como eu disse na apresentação deste livro do Seu Paixão, a Dinara e eu fomos educados no amor, no respeito e na arte de conviver com liberdade e inteligência. Pudemos aumentar o alcance das intenções do pai, professor e amigo; agora, o avô do Arthur.
Pensemos bem, portanto, nas adversidades, na maturação dos sotaques e no que se pretende descartar. Quem sabe se ouve e se pensa um pouco na utilidade de coisas simples do nosso cotidiano, como os próprios dedos, proposta na composição indicada no início desta prosa.
Até outra oportunidade nesse espaço da generosidade do Paulo Guimarães; querendo Deus.
Partenon, Porto Alegre, 04 de maio de 2012.
Dilmar Paixão
Fonte: Chasque Pampeano
Uma antiga fita cassette, fita magnética para gravar áudio inventada na década de 60, que eu encontrei por acaso numa dessas reviradas de gaveta no final de semana, fez-me recordar da participação juventudista e o próprio uso e desuso de imposição indefesa ante a modernidade. Aquela fita cassette, com seus dois carretéis, também foi vitimada por isso.
A questão essencial desta recorrida é a de que, não apenas objetos como esses, ficaram ultrapassados pela ansiedade evolutiva. Como se permitisse dizer, as pessoas foram praticamente objetificadas e, decorrentes disso, receberam a classificação de obsoletas. No CD Paixão em Família, há um poema em que eu abordo um pouco disso: Uma Oração pela Paz. Se quisermos ir logo adiante podemos, sem grandes esforços, identificar que até algumas instituições mais tradicionais igualmente vem sendo atacadas, desmontadas, destroçadas e forçadas a se tornarem objetos, quem sabe no intuito de serem descartadas e desprezadas por desuso ou estarem obsoletas.
É o ser humano doente, sem conseguir ser família. Pela paz não há vigília que acorde essa gente. Legiões de pessoas carentes, órfãos de fé e de alegria são reféns da hipocrisia, do poder do braço forte, ditando penas de morte para impor sua soberania. Estes versos, que tiveram o acompanhamento musical do Arthur Bonilha e a produção artística do Beto Caetano no CD que eu referi e que me é muito afetivo pela participação da família de hoje, quer remeter ao compromisso - que é de todos - e que precisa ser mais bem compreendido pelo universo dito tradicionalista, diante de tantos gaúchos de nascimento ou adoção esparramados pelo mundo.
Se o tradicionalismo é a tradição em movimento, como se aprende em vários escritos disponíveis na literatura regionalista gaúcha, inclusive no livro do Seu Paixão "O que é MTG: questionamentos e perspectivas"(2004), precisamos examinar com critérios mais específicos e criteriosos o que deve mesmo ser descartado e rotulado de não ter mais utilidade. Este mesmo livro já alertava de que "o inimigo de hoje não grita mais na coxilha, mas está junto de nós para destruir nossos valores..."(PAIXÃO, O que é MTG, 2004). Podemos ir a 1912 e aprender com Cezimbra Jacques: "Abraçar sem reservas, imprudentemente, sem meditação, o que nos vem de fora, além de sermos qualificados de volúveis, estamos cavando a nossa própria ruína" (JACQUES, 1912).
"O velho - no dizer de Paulo Freire - que preserva sua validade ou que encarna uma tradição, marca uma presença no tempo e continua novo"(FREIRE, 1998). Por isso, vou de volta ao encontro do Seu Paixão: "Alerta companheiro! A propaganda, os falsos valores, os maus comunicadores e os modismos não podem esmagar a cultura espontânea que brota do seio deste povo. Coerência e gauchismo são predicados que combinam".(PAIXÃO, O que é MTG, 2004, p.34)
Resta citar a esperança e a confiança no porvindouro, apostas da visão prospectiva do educador, ambientalista e pesquisador francês Jean-Michel Cousteau: "Os melhores investimentos que podemos fazer hoje são nos jovens, eles são como esponjas e são os futuros tomadores de decisão, e farão melhores escolhas do que nós fizemos"(COUSTEAU, Bens & Serviços, 2010, p.20).
Recorro, por derradeiro, ao examinar cuidadoso que aponta: "O carrapato no lombo do boi, o pernilongo sugando o homem e este matando a natureza. A vaidade e o personalismo precisam ser tocados com rédea curta e mantidos na ponta da picana do carreteiro. Todo o cuidado é pouco. O bom senso é recomendável !"(PAIXÃO, O que é MTG, 2004, p.25). Diante dos desafios do mundo, como eu disse na apresentação deste livro do Seu Paixão, a Dinara e eu fomos educados no amor, no respeito e na arte de conviver com liberdade e inteligência. Pudemos aumentar o alcance das intenções do pai, professor e amigo; agora, o avô do Arthur.
Pensemos bem, portanto, nas adversidades, na maturação dos sotaques e no que se pretende descartar. Quem sabe se ouve e se pensa um pouco na utilidade de coisas simples do nosso cotidiano, como os próprios dedos, proposta na composição indicada no início desta prosa.
Até outra oportunidade nesse espaço da generosidade do Paulo Guimarães; querendo Deus.
Partenon, Porto Alegre, 04 de maio de 2012.
Dilmar Paixão
Fonte: Chasque Pampeano
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