Uma entrevista bem humorada com Rafael Martins, 37 anos, músico, frequentador do CTG M'bororé, de Campo Bom, 30ª RT, que nos fala um pouco de sua profissão e de curiosidades sobre ele, que muita gente não sabe.

BLOG – Conte-nos um pouco da tua infância e essa paixão pela musica

Bueno, sempre fui fascinado pela música, sempre batendo em latinhas de alumínio, uma das minhas maiores frustrações foi não ter integrado a banda da escola(risos)! Mas meu primeiro instrumento foi um acordeon, foi presente da minha mãe/avó. Ela juntou dinheiro, com alguma dificuldade pra realizar um sonho meu de criança. O instrumento estava atirado no depósito da escola que ela trabalhava de serviços gerais. No início foi aquela febre mas como qualquer adolescente abandonei o instrumento. Me encantei pelo acordeon porque eu desde criança frequentei o CTG e, desde então, essa paixão vou carregar comigo até o último dia de vida!
 
Depois de anos dançando e sempre acompanhando, admirando instrumentistas, cantores, bandas, muitas delas em fandangos nos CTGs, ía sempre batucando juntamente com os LPs, Fitas K7, gravando as músicas da antiga programação da Rádio Liberdade pra escutar repetidas vezes e tentar acompanhar o ritmo. Me dei por conta que poderia tocar em algum instrumento de percussão pois eu era bom de ritmo atribuído pela dança, principalmente pelos sapateados da chula onde me arrisquei sem sucesso (risos)! Mas em 2004 tive que interromper minha passagem pelos tablados pois, como eu era militar, fui voluntário para a "Missão de Paz no Haiti" (MINUSTAH) 1º CONTINGENTE, atuando 6 meses nesse país. Na bagagem a pilcha, CDs gaúchos e a saudade do RS me acompanharam!

BLOG – Por que escolhestes a percussão?

Nas horas de folga e descontração em Port-au-Prince (HAITI) apareceram alguns instrumentos de percussão adquiridos lá mesmo, tambores de pele animal estaqueados em madeira talhada, achei o máximo e foi paixão a primeira vista, logo após ter o contato com o instrumento e sentir a ressonância produzida por um forte golpe, pensei comigo, "EU QUERO ISSO". Dali pra frente comecei a me interessar e pesquisar mais. Nesse período de missão tivemos férias de 20 dias, alguns voltaram para o Brasil por causa dos filhos e esposas, eu escolhi 3 dias nos EUA e 17 dias na República Dominicana onde lá sim pude conferir mais de perto o mundo percussivo, nas ruas, nas esquinas, nos bares, tudo era música regados a congas, bongôs, maracas e a partir disso eu creio que fiz minha escolha!

No regresso da missão tentei voltar aos tablados, mas a dança tinha me abandonado (risos), foi então que comecei a brincar com um pandeiro gigante de 13' polegadas e de nylon, acho que pesava quase 1kg. Em casa cantarolava as danças tradicionais e ia acompanhando, sem saber o que era certo ou errado, na época não havia essa informação ou se existia eu não tive acesso. Hoje ajudo alguns colegas gravando vídeo inclusive e explicando a forma correta de tocar as danças tradicionais. Mas voltando ao assunto, acompanhava as batidas do violão e somente mais tarde fui informado que estava certo meus toques pois segui por instinto a Clave de Fá, como não tem nas partituras do livro das danças tradicionais (CAPA AZUL) me explicaram mais tarde que era aquilo mesmo e assim me joguei pro meu primeiro evento como percussionista no rodeio do Campo Verde, em Campo Bom.
Logo comecei a adquirir outros instrumentos, deixava de comprar roupas, deixava de ir a festas somente pra juntar grana e comprar mais instrumentos. Ao invés de cachê eu toquei muito em troca de instrumentos, praticamente toquei 4 anos assim.

Tive muita sorte em ter muitas pessoas boas ao meu lado me incentivando, o regulamento dos rodeios e Enart eram mais abertos e eu me aproveitava disso pra me projetar no cenário musical desse meio, coloquei pratos, carrilhão, congas de madeira, bombo leguero, efeitos percussivos, montei uma mini bateria, enfim, aproveitei as oportunidades(risos), mas hoje vejo que isso só agregava para o concurso de coreografias, sempre respeitei muito o folclore e as pesquisas do Barbosa e do Paixão.

A partir disso estou aí até hoje, sempre colhendo informações, amadurecendo como músico e como pessoa pois isso é uma busca eterna, a percussão nos ensina isso, nunca vamos ter e aprender tudo. Esse aprendizado me fascina, cada lugar do mundo tem seus instrumentos percussivos e isso me atrai e graças a essa arte pude conhecer muitos lugares como Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, França, Suíça, boa parte do Brasil, mais Haiti e República Dominicana. PERCUSSÃO É MAIS DO QUE UM INSTRUMENTO, É UMA FILOSOFIA DE VIDA!

Hoje em dia me paro as vezes a pensar, todos aqueles artistas que eu via na televisão, escutava no rádio e hoje já fiz som com a maioria deles, por isso eu sempre digo, TENS UM SONHO? SÓ NÃO REALIZA PORQUE NÃO QUER, SE EU CONSEGUI, QUALQUER UM PODE! 
 

 


BLOG – O que falta neste mundo musical para o profissional atinja seu potencial máximo?

Creio que falte sim o apoio, uma maior atenção aos artistas no meio musical, vou abordar dois ambientes: Por primeiro, os musicais de grupos de dança. Muitos coordenadores não dão a devida atenção. Não estou aqui pra malhar ninguém, mas podiam delegar uma função pra alguém que fique em contato direto com os músicos, muitas vezes temos que correr atrás das informações, locais de apresentações.

Outro fato é que são raros os espaços destinados aos músicos pra um eventual ajuste de vozes, instrumentos, muitos eventos tem patrocínios e poderia disponibilizar pelo menos uma água pro pessoal que canta e toca, todos precisam carregar seus cases/bags pra cima do palco e fica aquela bagunça, creio que falte uma direção de palco em todos os eventos pra agilizar as passagens de som, 5 minutos é desumano, claro que ninguém vai ficar meia hora ajustando o som, mas uma direção de palco resolveria muita coisa.

Por segundo os grupos de baile, olha aí o furo é mais embaixo, a vida na estrada é árdua, todos enxergam somente as alegrias, o sorriso no palco, mas mal sabem o que vem antes, durante e depois, muitas vezes tomar banho em um cano com água gelada, comida que é feita de qualquer jeito e muitas vezes fria, fora os perigos da estrada, músicos que possuem instrumentos que valem 15, 20 mil e tocam por um cachê de 200, 250 reais.

Todos merecem uma atenção especial. A boa vontade não custa nada pra ninguém, passar por um aperto as vezes tudo bem, mas sempre daí fica difícil, no final o amor a música e a necessidade financeira falam mais alto e fica por isso mesmo. Mas acho que todos nós podemos refletir e visualizar o que podemos fazer pra melhorar o ambiente profissional, o que podemos fazer pra ajudar o colega que precisa, o conselho que podemos dar pra um coordenador de grupo de dança, enfim, conversando conseguimos melhorar, sempre com a ajuda dos parceiros, talvez, possamos atingir um bom nível musical dentro de qualquer evento. Quem sabe na final do Enart 2018 tenhamos novidades quanto ao assunto (risos)!

BLOG – O que faz o Rafa quando não está tocando?

O que eu faço quando não estou tocando? Eu continuo tocando (mais risos). Em casa tenho minha sala de instrumentos onde fica minha bateria e meu set de percussão,estou tentando entrar na área de produção também, o extra-palco,  onde a dedicação é extrema, sempre estar pronto pra resolver problemas de imediato, servir os artistas quando preciso, estou me encontrando com uma galera desse ramo e estou ficando muito empolgado com essa ideia de fazer isso além da tocada, com muitas coisas que já vivi no meio musical penso que posso fazer um trabalho diferenciado, sou um pouco saudosista, fico admirando fotos de palcos que já toquei. Imagina quando um grupo musical que saiu dos rodeios iria abrir um show do Roupa Nova? Foi demais.

Eu escuto muita música, muita música mesmo, consumo muita música gaúcha, coisas que já gravei entre CDs e DVDs, mas também preciso escutar outras coisas pois atuo na noite também, Pubs, bares, casas de shows, bailes, rodeios, festivais!

Penso muito no meu futuro e na minha família, e agradeço todos os dias a Deus pela esposa que ele colocou na minha vida, ela é a minha maior inspiração e minha maior motivadora, foi o mundo tradicionalista que me deu a oportunidade de conhece-la e sou grato por isso, tenho muito orgulho pois além de uma excelente profissional no ramo da beleza ela é uma exímia dançarina, uma ótima professora e a melhor companheira que escolhi pra viver até o fim dos nossos dias!

BLOG – E tua trajetória na música profissional?

Então, em 2005, iniciei nos musicais de CTGs, primeiramente, no GAN Ivi Maraé de São Leopoldo, aprendi muito, tomei muito na moleira até ser visto por outros grupos, tive passagem por grandes CTGs, verdadeiras potências do nosso estado mas hoje vejo que não nada melhor do que nossa casa e a conclusão depois de passar por tantas entidades trabalhando é que a grandiosidade está no contexto geral e no CTG M'bororé (minha casa) tem tudo isso! Juntamente com o tradicionalismo conheci o pessoal da noite, aí a criança hora e a mãe não vê (risos) uma verdadeira escola, assim conheci o pessoal que atuava em shows.

Por volta de 2006 conheci o cantor uruguaio, Raul Quiroga, e muito aprendi com esse querido amigo que conservo até hoje, em 2009 o meu amigo Dilson "Jóia" me apresentou ao cantor Wilson Paim onde atuei na banda por quase 5 anos. Se o músico fizer o seu trabalho com seriedade, responsabilidade e competência nunca vai faltar trabalho e nesse meio musical uma coisa puxa a outra, entre os shows apareciam muitas gravações, desde então gravei e toquei com muita gente como, Elton Saldanha, Maria Luiza Benitez, João de Almeida Neto e Pirisca Grecco.

Então, ainda tocando para os grupos de dança, uma galera se juntou no CTG Porteira Velha de Novo Hamburgo, o musical se formou por acaso pois contrataram os músicos aleatoriamente e a sincronia foi tão natural, a facilidade de montar arranjos, montar as vozes era muito rápida e dali saiu o "GRUPO MAS BAH", onde fui um dos fundadores e atuei por 5 intensos anos, viagens, shows, festas, brigas(muitas) risadas(muitas mais) vitórias e derrotas, assim é a vida de qualquer banda, cada um trava sua guerra. Ao final de 2016, me desliguei do grupo em busca de novos ares, novos desafios e eis que me deparei com o mundo baileiro, sempre admirei as bandas gaúchas pois frequentava munto na minha juventude os bailes, então atualmente toco muitos bailes com a dupla Paquito e Jóia onde fizemos alguns bailes juntamente com o cantor Walter Morais e também o cantor Mano Lima. Trabalhei, também com o Estúdio Musique do professor Willian Varela, "Projeto Nosso Jeito é Cantar", com Maria Fernanda Costa, Luis Arthur Seidel, Leticia Roennau, Anna Lira e Isabelle Mottini.

Mas agora estou bem focado no projeto solo do Cantor e Acordeonista Lincon Ramos, acredito muito nessa empreitada e creio que é questão de tempo pra ser uma potência do sul do país no que se trata dos fandangos gaúchos. Já temos datas previstas inclusive em eventos oficiais do MTG e isso nos enaltece!

COMIDA: CARNE (não importa como, gosto de carne - risos)
LIVROS: Não sou fã da leitura, mas li TROPA DE ELITE, muito bom.
FILME: Vários, Resgate do Soldado Ryan, Falcão Negro Em Perigo, Sniper Americano (Será que gosto de filmes de Guerra? - risos)


Fonte: blog do Rogério Bastos
Axact

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