Shana Müller, apresentadora do Galpão Crioulo (Foto: Felipe Goldenberg/RBS TV)

No fim de semana passado, uma notícia do nativismo chamou a atenção: três mulheres venceram o Festival da Vigília do Canto Gaúcho que realizou sua 26ª edição em Cachoeira do Sul.

A música "Uma luz em preto e branco" tem letra e melodia da parceria de Bianca Bergman e Aline Ribas e foi interpretada por Maria Helena Anversa. A canção venceu na categoria Linha de Manifestação Riograndense.

Confesso que fiquei surpresa porque nas últimas vezes em que fui ao festival havia uma conotação bem campeira (já faz anos, é bem verdade) e, portanto, a participação, em sua maioria, masculina. Ainda se espera que essas temáticas sejam interpretadas pela voz masculina, que, de certa maneira, representa toda a rudeza e força que vem do campo. Uma visão ultrapassada, claro, pois hoje o campo é comandado e trabalhado tanto por mulheres, quanto por homens. Já faz tempo que peleamos pelo poder dessa palavra também.

Pois hoje o festival voltou a seus tempos antigos quando tinha uma abrangência maior nas temáticas, e, certamente por isso, incluiu a linha de manifestação para atender a temáticas diferentes.

Foi aí que as gurias venceram: trouxeram ao palco uma música que fizeram no Canto do Jacaquá, em São Francisco de Assis, uma espécie de festival laboratório para artistas convidados em que podem participar tanto homens, quanto mulheres. O tema naquela ocasião foi "quando o tempo nos maltrata". Guardadas as supostas ironias, nós, mulheres, tratamos mais sobre esse assunto diariamente e, vejam, não estou falando do espelho, mas da percepção e da exposição mais clara do sentimento.

A Aline me contou numa conversa que ela fez a letra e dividiu para correção com a Bianca. Sua mãe havia falecido há pouco e os sentimentos em relação ao tempo e sua passagem estavam à flor da pele. Fizeram a melodia juntas e com a ajuda de Maria Helena apresentaram a canção nesse evento que não tem público.

Coincidência ou não, Aline e Bianca são casadas com artistas da música regional: a primeira com o compositor e intérprete Robledo Martins e a segunda, com o poeta Carlos Omar Villela Gomes.

Questionei a Aline nesse bate-papo sobre o incentivo. Ela me disse que "ele é quem mais me critica". Não por ser mulher, mas por ter uma experiência de três décadas nos festivais e conhecimento sobre o que faz. Nesse caso, é bem bom contar com conselhos, né?
A história com a Bianca não deve ser muito diferente. Sempre as vejo acompanhando os guris nos eventos. A Aline escreve há três anos; a Bianca, há 10. A parceria delas iniciou há uns quatro no Carijo da Canção Gaúcha, quando levaram o terceiro lugar com a mesma interprete!

Bueno, não sei se o fato é inedito – de três mulheres vencerem um festival –, mas não recordo de algo assim nos últimos tempos. Vale ressaltar que no palco os músicos eram homens e que pra mim isso é muito legal, pois acho que a gente tem que batalhar por espaço sem separar, mas integrar.

O meu destaque é porque somos poucas, e no setor da composição, somos menos ainda. Quando vejo duas gurias mostrando talento para criar vejo que é necessário contar isso a vocês!

Os festivais vêm acontecendo há tanto tempo no Rio Grande e em Santa Catarina que vimos muitos artistas surgirem nesse cenário. Vimos altos e baixos do movimento do nativismo. Fomos surpreendidos por composições e vivenciamos momentos de "mais do mesmo". Sou daquelas que sempre questiona a necessidade de uma revitalização, uma revisão dos eventos e de seu formato.

Ver duas mulheres compositoras vencendo com uma interprete mulher me parece não uma ruptura, mas uma atualização dos tempos!

E sendo assim, que eles sejam bem vindos e que sejam bem vindas cantoras, compositoras, musicistas, juradas, apresentadoras, produtoras, organizadoras. Que tenhamos cada vez mais "as" integrando-se aos "os" dos festivais nativos!
Aí segue a letra para conferirem o poema das gurias. Boa semana!

(Que a gente merece o bem!)

UMA LUZ EM PRETO E BRANCO

Vou sangrando uma luz em preto e branco
Pelas veias dos meus versos sem poesia.
Meu silêncio suplicando a paz dos sonhos,
Num viés que se perdeu no pó dos dias.

Pelo tempo os meus pés pisando em pedras
Vão forjando corredores, cicatrizes.
Invencíveis tempestades de saudade,
Ao ventar acinzentaram meus matizes.

Quando a prece já cansada virou dor
Vi que o tempo maltratou o meu caminho.
Ao roubar o rubor pleno de uma flor,
Não restou sequer a cor dos meus espinhos.

Mas a estrada é feito um elo entre os tempos,
Sustentando as inquietudes do viver.
Sua força reconstrói e acarinha...
Nos seus braços aprendi me conhecer.

Quando os olhos não pintaram os segredos,
Nem a imagem do sublime amor mais franco,
Foi que a alma já sangrada em desespero
Fez verter a própria luz, em preto e branco.


Fonte: espaço Galpão Crioulo junto ao GShow
Para ver a matéria original, clique aqui.
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