ROMANCE NO SALADEIRO

(Obra fictícia de autoria do Prof. Lizandro Araújo, sequenciada à série “O Ciclo do Charque em Arroio Grande” publicada em quatro capítulos na coluna semanal do Jornal A Evolução, da cidade de Arroio Grande/RS)

Vassuncê qué qui eu ti conte uma história?

Si senta aqui intão e iscurta essa que a negra velha vai ti contá. É triste, mas é de Amor.

Era janero... eu bem mi lembro! O sol ardia feito “brasero” queimando a pele preta da gente, junto com vento que suprava da lagoa... Mas o ardô era ainda maió, misturado com sangue e com o sal da charqueada do Sinhô Aguiar.

Nóis era muitos, Vassuncê sabe! A prudução era grande e a cada safra exigia mais negro de braço forte pro trabaio penoso. Cumiam muito carne seca os negro di outras paraje, Vassuncê sabia? E o Sinhô Aguiar aproveitava pra vende tudinho. Eu não comia, preferia os miúdo pra fazê mexido e fervura, o caldo ficava grosso e dava mais resistência pra gente aguentá aquela tristeza de vida. Eu nem me envolvia com os negro da cancha da matança, eu era negra da cozinha, minha obrigação era cozinhá pros senhores e prepará as comida dos meus irmão de cor, apesar que... mal comiam aqueles desafeliz!

Aquele dia (esse que tô cuntando pra Vassuncê) já amanheceu triste pra mim, minha intuição me dizia que o que viria acuntecê marcaria pra sempre a vida daquela família amaldiçoada. Meu sinhô se chama Antônio Gonçalves de Aguiar, homem muito ruim, sabe! Mal de espríto... sem sangue nas veia, Vassuncê me cumpreendi? Mal com os negro da charqueada, com a mulhé... até com os filho... u homem não sussegava! Eram 6 homens e 1 menina-moça... linda a minha “Joana” (esse éra o nome da avó materna dela), que ajudei a pô nesse mundo quando fiz o parto da Sinhá Deolinda há 15 anos atráis... O Sinhô Aguiar só protegia um dos guri, o Emilinho. Era o preferido dele. Ele costumava dizê que era o Emilinho que iria sucedê ele nus negócio da charqueada... Nunca dei fé nisso, o “Emilio” era fraco de personalidade e ruim pros negócio... Não puxou ao pai! Era mimado di mais!

Mas como eu cuntava a Vassuncê, aquele dia ia marcá pra sempre a história daquela família, e tudo pru causa dum amor pruibido... quando esse chega, ninguém segura, a gente não dumina o coração da gente... Só que esse amor troxe tristeza, ódio... e morte. Era o ano do Nosso Senhor Jesus Cristo de Mil Oitocentos e Setenta.

Uns dois dia antes disso, o Sinhô Aguiar e mais dois feitor dele, tinha partido pros lado da Santa Isabel dos Canudo, pro mode compra mais uns negro pra charqueada – como disse a Vassuncê, o trabalho era muito, e o Sinhô ambicioso que só, sempre queria mais negro pra dobrá a produção. O sol já estava por se recuíe, quando lá pros ladu das curva do arroio Chasquero eles apuntaram cum os cavalo e a carreta. Ela vinha cheia de incumenda prá cozinha do casarão e pra graxera, que o Sinhô Aguiar havia pedido que buscasse do Rio Grande. Mas também trazia mais trêis desafeliz, cumprados no mercado da tal freguesia. O nome dos trêis eu não me alembro não. Só dum! Justamente dum que trazia com ele a disgraça... a tristeza... mesmo sem dela querê.

Era “Francisco” o nome do desafeliz. Um pardinho criolo duns 18 ano mais ou menos... Bonito que só ele (risos). O negro era bonito mesmo! Tinha a pela cor de açúcar queimadu e forte q nem os toro da charqueada. Diziam que era cruza de uma escrava com um Sinhô - daqueles importante lá dus Canudo, sabe! Dizem que a Sinhá discubriu a paternidade do criolo e colocou prá vende. Ouvi falá...

Quando eles apeiaram dus cavalo, o meu Sinhô Aguiar chamo uns negro da manguera para ajudá na discida das carga. Com aquele movimento todo, eu fui vê o que se acontecia no terrero, porque a cachorrada não parava de lati! Quando cruzei o corredô em direção a quina do casarão, donde ia pra cadeia também, vi a Joaninha bisbilhotandu pelas curtina da sala as compra du Seu Aguiar. Parei... ulhei atentamente pra donde ela ulhava com tanta firmeza (tanta que nem me viu!), e vi que o “recém-chegado” também tava encarandu ela.

Num era aquele ulhar de quem trazia nas vista o ódio pelus branco pur causa do cativero, não, mas era olhu de homem prá cima de mulhé... no caso, a minha menina! Como eu era negra vivida, já tinha me apaixonadu na primeira vista também por um recém-chegado... conseguia senti o que Joaninha tava sentindu: coração paupitando no peitu, tremor nas pernas. Boca seca! Coisas du amor da juventude!
Mas é que ele era bem apessoadu mesmo. Mas não prá ela!

Algumas lua se passaram e aqueles trêis desafeliz já tavum inturmado com os otros negro da charqueada.  “Chico”, como o capataz chamava o Francisco, tava sempre di olhu nele... não tinha gustado muito. Trabaiava, mas num gustava de cê mandado, não! De hora e otra, ele i u capataz se pegavam batendu boca perto das manguera (Chico exercia a função de Campero). Até uns “relhaço” o Chico levo no lombo pra não desobedece o capataz! Era teimoso, que só! Num tinha medo de nada... sempre aguentava firme e com o olhu vidrado nas vista do capataz.

Certa manhã, fui levá o dejejum da Joaninha e ela num tava no quarto. Tava pindurada di novo na janela da sala de música da Sinhá ubiservandu as manguera... as manguera não! Chico! Negro “lustroso”... brilhava a pele suada no sol, tocando o gado rumo à cancha da matança, mas de olhu firme na Joana! E isso se repetia dia após dia. Semana após semana. Até que certa feita, o capataz Rufino pegô a troca de ulhares. Entre us dois... e ralhô com Chico.

Joana foi ter um dedo de prosa cumigo lá na soteia... enquanto eu firmava a sumbrinha prá protege a menina du sol, que naquela época já num duía tanto na pele (era o sol de outono que cumeçava), mas qui podia queimá a pele branquinha dela... ela me contô tudo! De mim nunca escondeu nada mesmo, praticamente eu qui criei a Joaninha, porque a Sinhá Deolinda andava sempre tristonha pelos cantu du casarão, doente, deitada (não se acostumava com aquela vida isolada no Chasquero que tinha. Prefiria ter ficado nu Rio Grande. Mas não desobedecia o Sinhô Aguiar... tinha medo dele, a pobre!)

Joana me falô que estava enamorada por Chico. Pobre!

- Me apaixonei por aquele escravo novo que papai comprou, Naná Rosa! Que trabalha lá nas mangueiras! Disse. (“Rosa” era meu o nome de cristã. Sou negra Mina. Africana de nassença).

- É Francisco o nome do desafeliz!!! Reprendi ela!

- Não consigo parar de pensar naquele mulato, Naná!!! Desde que papai chegou com ele, a sua imagem, o seu cheiro trazido pelo vento, não me sai do pensamento. Meu coração só se acalma quando eu o vejo... é como se eu já o conhecia! Não consigo nem dormir, esperando ouvir o barulho que vem lá das mangueiras...! Desabafou.

Mesmo sabendo que aquilu era “fogo de menina-moça”, até purque Joana nunca havia di ter vistu homem na vida (só os irmão, e assim mesmu, na mesa!), aquelas palavra me desaquietô meu coração. E aquela certeza di quê arguma côsa não tava no caminhu das côsa qui são certu.

Aconselhei. Ouvi. Só!

Um certo dia eu me destraí na cacimba coiendo água e não vi que a Joana tinha atravessado o corredô do pátio internu e ido prá soteia sozinha (o que nunca acunticia!). Foi seguidu d’ meio-dia, porque eu e a ‘Merenciana” (a outra escrava da cozinha) tava pegando água pra desengordurá os prato da Sinhá.. O trabaio tava mais calmu na charqueada, porque nóis tava no período da reserva do charque (nas lua de tempo frio, não se abatia gado na cancha da matança, nem se fazia charque purque mofava nas vara sem a força du sol do verão pra secá). Os escravo que eram só da charqueada, tava tudo trabaiando na Caiera do Seu Aguiar, fazendo cal e tijolo prá vende no Arroio Grande (Sinhô Aguiar era muito ambicioso pelos conto de réis que ajuntava sem lá donde – dizem que escondia numas panela de barro, com pedaço de oro junto e depois enterrava em lugares diferente pra ninguém sabe...).

A ida da Joana prá soteia não foi pra tomá à fresca, não! Ainda se fosse!!!

O Chico tava ali embaixo, entre as parede da Senzala e o Muro que prutegia o Casarão nos fundo. Eles os dois passaram a cunversá às escondida. Primeiro ali pela soteia mesmo. Depois à noite, bem tarde, pelas fresta da janela do quarto da Joana. Eu até vi algumas vêiz isso acontece (eu fazia a volta pelo canto do casarão e espiava por tráis dumas flor da Sinhá Deolinda.... Mas era só pra cuidá os dois mesmo, pra mode o capataz e os otro peão do Seu Aguiar num pegá em fragante os dois apaixonado), mas não fazia nada. Não falava nada, mas via sim! Eu via!

Numa noite... de tão fria que tava, que nem as curuja se animava a grita nas teia do casarão... eu me durmi (tinha trabaiado muito fazendo canja pros patrão e mexido prus negro da senzala) que  isqueci de vigiá aqueles dois. Justamente naquele derradera noite em que o Chico entrô no quarto da Joana. O que fizeram? Ué! Num sei, num tava lá prá vê, Vassuncê me compreendi? Mas o que um homem feitu faz num quarto de menina-moça sortera? Vassuncê num sabe?

- Faz desgraça!

E foi u qui aconteceu. Como ninguém viu o acuntecido, u Chico seguiu pulando a janela nas noite que seguiram aquela, também. Até à noite (ainda de inverno) de lua cheia (daquelas que alumiava até as água do Chasquero), em que o desafeliz foi visto pulandu – não por mim, mas pelo capataz Rufino (que tinha ido se aliviá perto das manguera). Esse outro desafeliz nem barulho fez, ficou ali na moita, só obiservandu o atrevimento daquele “criolinho” metido a macho. Foi ali u começu do fim dessa história que conto pra Vassuncê!

Mal o dia raiô e o Seu Rufino (peste que só!), foi tê um dedo de prosa com o Sinhô Aguiar quando esse ia amuntá no seu “Tordilho” prái cumprá umas cabeça de gado pra engorde (pra mode sacrificá na próxima safra)... Nem precisô o Seu Rufino termina a prosa, pru Seu Aguiar se enfurece (dum jeito que eu nunca tinha visto nessa minha desgraçada vida, e olha que ele era um homem muito mal!!!).

Quandu a porta da frente do casarão “estoro”, vi que era a desgraça adentrando naquela casa amaldiçoada!!! Me correu um “urrupiu” que me frisô a nuca, seguido de um suó frio... Antes de cruzá pruo quarto da menina Joana, Seu Aguiar cruzô o segundu corredô e foi se bate na cozinha donde nóis tava fazendu os dejejum dos que durmia na casa (o sol mal tinha arraiado na lagoa). Só deu tempu de largá o chalera nu fogo e ele me “manotiô” da “carapinha” e quase me esfolô viva!!! Na hora, num senti dor. Doía minh’alma, meu coração, porque eu imaginava du que se tratava: Chico... Joana...

Cunforme ele me agarrô, me atiro pra fora da cozinha daonde tava um dos feitor “pitando”, e mando que me levasse pru “palanque dus negro” (o Tronco) e lá, não era pra ter pena do meu lombo preto... pra ensiná qual era minha obrigação naquela desgraçada casa.

Sinhô Aguiar foi intão em direção ao quarto da Joaninha que ainda durmia em paz (sunhando, quem sabe, com aquele desafeliz du Chico!). Só se ouviu um grito e nada mais.... seguidu de estrondo de marreta e cravos. Aquele pai sem coração (o “diabo” em pessoa) mandô encerrá pra sempre a filha nu quarto, lacrando cum cravos a “janela do amor” e a porta, deixandu a coitadinha lá dentru, encerrada, prá morre de mingua... sem água... sem pão... consumida pela paixão avassaladora que lhe custo a vida. E assim foi...

E u “Chico”, Vassuncê pregunta?

Dipois de ter sufrido que nem boi na cancha da matança, com as parte arrancada e pindurada no “piscoço”, na frente de todos os negro da charqueada, foi enterrado agonizando o pobre, em pé, pertu da entrada da mangueira donde aquele romance começô.

O Sinhô Aguiar num foi mais o mesmo, não! Parece que fico mais raivoso que o cão, tinhoso que nem o Dêmo! Nem os negócio da charqueada passaram ser a mesma côusa, começo as dívida aparece e ele não cumprí com os acordado.

Dona Deolinda, pobre desafeliz mulhé, morreu, antes desse ano do Nosso Senhor Jesus Cristo de Mil Oitocentos e Setenta chegá ao fim. Morreu de desgosto. Morreu de dor de mãe.  Foi levada pra enterrá no cemitério do Arroio Grande – pra bem longe daquele lugar amaldiçoado!

Sinhô Aguiar morreu também, anos depois. Achado c’ um punhal atravessado às costa – num sei si de negro, por vingança, ou pelos branco que ele devia... Foi tarde o demônio!

Eu resisti as dor da chibata – 50 no meu lombo preto. Se num fosse o negro “Jusé Gunga” (que curo minhas chaga), teria ido de volta pru meu povo lá na África! Teria murrido também, qui nem a Joana e o Chico! Mas num morri não!!!

Sobrevivi pela minha Joaninha. Só por ela! para pudê cuntá essa história prá Vassuncê. O nome da pobrezinha caiu nu esquecimento da família dipois du acuntecido. Nem nos documentu dos dotô da justiça dos branco (aquele qui si faiz quando morre um rico assim como o Seu Aguiar! Sabe?...) o nome da Joaninha apareceu. Por isso que muitos dizem que essa história que conto pra Vassuncê é “lenda”, é “causo” de preta-velha. Mas num é não! Eu vi! Eu tava lá!

Lenda é o que contam dela, quando dizem que a “moça foi emparedada viva”... Olha, emparedada assim de colocá na parede mesmo (ou nu portal do casarão, como dizem também), num é verdade não (a casa num tinha portal alto!). Mas ela foi sim trancafiada viva pelo pai dela nu quarto, onde morreu de amor... um amor puro, daqueles que talvez Vassuncê nunca vai sabe o que é, purque é amor d’alma! ...

ESSA HISTÓRIA QUE ACABO E CONTAR A VOCÊS, FOI INSPIRADA EM UMA DAS LENDAS MAIS CONHECIDAS E CONTADAS SOBRE A ANTIGA “CHARQUEADA DE ANTÔNIO GONÇALVES DE AGUIAR” – A CHARQUEADA DO CHASQUEIRO (QUE JÁ FOI TRATADA AQUI NA COLUNA).

COMO DIZEM, É UMA LENDA, NÃO HÁ DOCUMENTOS QUE REALMENTE COMPROVEM ESSE TRISTE EPISÓDIO, APENAS RELATOS DE ANTIGOS MORADORES DO LUGAR QUE FORAM PASSANDO DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO.

A MINHA HISTÓRIA QUE VOCÊ ACABOU DE LER, É FICTÍCIA, FRUTO DA MINHA FÉRTIL IMAGINAÇÃO DE HISTORIADOR. ALGUNS NOMES CITADOS AQUI (EXCETO O DA MENINA “JOANA” E DO CATAPAZ “RUFINO” QUE SÃO FICTÍCIOS) SÃO VERDADEIROS E EXISTIRAM REALMENTE NA CHARQUEADA – TODOS RETIRADOS DO TESTAMENTO DE ANTÔNIO GONÇALVES DE AGUIAR.

O NOME DESSA SUPOSTA FILHA MORTA PELO PRÓPRIO PAI É DESCONHECIDO, ASSIM COMO O NOME DO AMANTE ESCRAVO (OUTRAS VERSÕES DIZEM QUE FOI UM VIAJANTE QUE ANDOU POR LÁ). O NOME QUE ESCOLHI PARA O AMANTE ESCRAVO NA HISTÓRIA (FRANCISCO) É SIM DE UM DOS ESCRAVOS DE AGUIAR, NEGOCIADO POR ELE NO DIA 30 DE JANEIRO DE 1870, EM SANTA ISABEL, COM A SENHORA ELEUTÉRIA EUGENIA DE CHAGAS (CONFORME DOCUMENTOS DA ÉPOCA). MAS NÃO QUER DIZER, COM ISSO, QUE SEJA ESSE O NOME VERDADEIRO, POIS, COMO AFIRMEI, SÃO HISTÓRIAS, LENDAS QUE CONTAM A RESPEITO DA CHARQUEADA. SE VERDADEIRAS OU NÃO “NUNCA” SABEREMOS! E JUSTAMENTE POR ISSO, PELO MISTÉRIO QUE AS ENVOLVEM, TORNAM-SE EXTRAORDINÁRIAS, ASSIM COMO MUITAS OUTRAS EXISTENTES POR ESTE GRANDE “ARROIO GRANDE”


Colaboração: Prof. Lizandro Araújo de Arroio Grande-RS
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