CHARLA DE PEÃO *Juarez Cesar Fontana Miranda O Rosnido dos Guaipecas Buenas Gauchada! Nos ultimos dias tenho andado de lombo mais dur...
CHARLA DE PEÃO
*Juarez Cesar Fontana Miranda
O Rosnido dos Guaipecas
Buenas Gauchada!
Nos ultimos dias tenho andado de lombo mais duro do que dedo de dedo duro. A barulheira do ladrido da guaipecada, que toma conta dos dois ranchos posteiros e da casa grande, lá na Potreiro do Planalto, tem me deixado meio zureta, o que vem me fazendo soltar um rolo de fumaça negra pelas ventas.
Toda essa ganiçada é porque um cusco de lei – mastim, cria do Piquete das Araucárias - que reponta uma matilha de farejadores, empeçou a rosnar grosso desde que olfateou que a cachorrada lá de riba, anda arreglando chusma para enfiar os dentes, até o tutano, nos ossos da bicharada que se arrancha nas Invernadas da Estância do Pau Brasil.
Pela zoiera dos ganidos da cachorrada, o que se ouve aqui no Potreiro dos Tauras, dá para tirar uma tenência das manhas e das ganas desse cusco com entonos de policial.
Uns falam que o mastim, mesmo tendo cruza com pitibul, é macanudo em quantia, outros dizem que o perro é doberman da mais pura cepa, que não é pitoco, mas também, não é de enfiar o rabo entre as pernas.
De certo, mesmo, o que se sabe, aqui pelas pulperias do pago, é que o entreveiro já está armado, que o bochincho corre soltito no más e que o bicho, não só continua rosnando grosso, como anda, cada vez mais, mostrando a raiz dos caninos.
Nessa olada, da maneira que o osso está sendo roído, não adianta a cuscarada sarnenta esquentar os mocotós e picar a mula, porque a munhata já está assada e vem quente e a mordida no garrão, de qualquer jeito, vai acontecer.
Entonces, como quem dorme com cusco sarnoso amanhace cosquilhoso, o melhor que essa cachorrada lazarenta pode fazer é botar os pelos de molho, socar a viola no saco e parar de roer o osso, porque, antes de se lambuzar no tutano, vai ficar acorrentada, comendo pirão de farinha de mandioca, frio e todo encaroçado, lá no Canil do Canguiri.
E, como cachorro de matilha não peleia solito, eu me quedo por aqui, acrocado no meio do macegal, só bombeando para que rumo que a escaramuça vai e, se for preciso dar uma sacudida no salseiro, também entro na rusga e com as tranças do rabo de tatu maneado na munheca, me aboleto no lombo desses nojentos e saio triscando o mango nas paletas desse bando de vira-latas.
Ao que, de vereda, me interpela o Eleutério:
- Neim te apoquenta, parcero. Intaum tu não sabe que guaipeca dessa laia é tudo alarife? É só dá uma acuada cuiuda que eles naum aguentum u repuxo, infium a cola nu meio das perna i parum de uivá, ligerito, no más.
I pru teu cunhecimentu, vô te contá um lero-lero qui ôvi dus cuscu lambancero qui inzistim nas grota du nossu pago.
Me contarum, us linguarudu, qui tem uma cuscarada qui manda i não pede cancha nesses piquete, i qui, certa feita, um dus cusco andava canchiando osso i num pastiçal, beím nas barranca do açude do Brejo Fundo, incontrô um cusco véio qui pastoriava uns animal i já foi puxandu u ganiçu:
- Buenas, pastor véio! Eu queru qui tu me dê um osso i aí, quanu a cuscarada miscoiê acuador, tu fica aqui lidanu nu potreiro, qui eu vô latí pur nós dois, lá na sede da Estância.
- Bueno, tu só leva u meu osso, si tu não me botá colera i, si me expricá pruque acontece qui, cumenu pastu dum mesmo capinzal, a bosta das ovêia é um montaum de bulitinha, a das vaca é uma plasta i dus cavalu um monte de pelota seca?
- Mas báh, vivente! Dessa lenga-lenga eu naum tenhu a menor idéia. Tô mais pur fora du que casco de mulita.
- Entonces, francamente, como tu te sente apreparado prá uivá pur mim? Si, agorita no más, eu vi qui tu naum intende nada de bosta nenhuma.
É isso mesmo, meu caro Eleutério. A tua botada é mais clara que água de cacimba e é aí que eu me refiro: contra fatos não há argumentos.
*Escritor e Poeta Nativista
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