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“Bento Manoel Ribeiro, O Caudilho Maldito” destrincha a Revolução Farroupilha

O “Caudilho Maldito” é o cognome que o historiador Euclides Torres escolheu para dar o título da biografia do marechal do Exército Ben...


O “Caudilho Maldito” é o cognome que o historiador Euclides Torres escolheu para dar o título da biografia do marechal do Exército Bento Manoel Ribeiro (1783/1855), figura dominante nos conflitos políticos e militares da região do rio da Prata, também conhecido pelos epítetos de “traidor” ou “velhaco”, nas alcunhas que lhe colaram seus inúmeros inimigos. É uma visão controvertida demais para um herói.

Bento Manoel teve trajetória política e militar no Brasil, Uruguai e Argentina. Foi vencedor das guerras pela posse do Uruguai, entre 1816 e 1821, das intervenções para impor e depor governos nos países vizinhos, destacando-se seus relacionamentos estreitos com grandes caudilhos hispânicos: Frutuoso Rivera (seu compadre e primeiro presidente do Uruguai) e Justo Urquiza (presidente unificador da Argentina criando a Confederação Argentina, primeiro passo para a criação da atual República Argentina).

Comandou uma divisão do Exército na campanha para derrubar o ditador portenho Juan Manoel Rosas. É vilão ou herói de três países, conforme o ponto-de-vista do narrador.

Caudilhismo não se herda

A sua trajetória foi recuperada por Euclides Torres, no livro “Bento Manoel Ribeiro, O Caudilho Maldito”, produzido pela Editora Edigal, já disponível nas livrarias virtuais e convencionais. É relevante a classificação de “caudilho”.
 
Jornalista e escritor caçapavano, Euclides Torres – Foto: Gazeta/divulgação
 
Segundo o ex-presidente do Uruguai, José María Sanguinetti, historiador reconhecido em todo o mundo hispânico, caudilho vem do vocábulo castelhano antigo “cabedillo”, que significa “cabeça”, criando um tipo político muito particular e de grande valor individual e que constrói sua própria biografia: “A caudilho não se chega por herança”, diz Sanguinetti.

Bento Manoel, se tivesse migrado para o Rio de Janeiro, como outros chefes políticos brasileiros que tiveram papel destacado nas guerras do Prata, tanto nos tempos de Dom João VI como depois da independência, seria uma figura fulgurante na historiografia, tamanha a riqueza de suas peripécias, tanto a favor quanto contra uma boa imagem. Sua legenda ficou na província, a merecer um estudo mais aprofundado e maior difusão nacional, como se propõe o livro em pauta. É uma figura maior da História não só do Brasil, mas de todo o Cone Sul.

Vale a pena dar um passeio por sua biografia que, além de tirar do limbo esse personagem rico e espantoso, oferece ao leitor saborear um texto escorreito, no melhor padrão do jornalismo dos grandes tempos. E também uma visão isenta, longe dos preconceitos e lugares-comuns que cercam Bento Manoel, estigmatizado pelos historiadores gaúchos do fim do século XIX e início do XX, ainda contaminados pelos ódios da grande guerra que separou os liberais riograndenses na guerra civil que travaram entre si por 10 anos, entre 1835 e 1845.

Seus reais adversários, os conservadores, ficaram assistindo de camarote. Realmente, a Guerra dos Farrapos é um conflito armado entre duas facções do mesmo Partido Liberal: os “históricos”, liderados pelos caudilhos Bento Manoel, com base em Alegrete, na fronteira oeste, e Bento Gonçalves, com bases em Pelotas, na fronteira sul; os “progressistas”, chefiados pela família Marques de Souza, da capital, dominando a região central ao norte do rio Jacuí, que tiveram entre outras expressões o futuro conde de Porto Alegre, Manoel Marques de Souza.

O autor

Um registro sobre o autor. Torres é membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS), professor aposentado das universidades federais de Porto Alegre (UFRGS) e de Santa Maria (UFSM), graduado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

Como jornalista, trabalhou em diversas funções editoriais nos principais jornais do País, como Jornal do Brasil, O Globo, Gazeta Mercantil, Folha da Tarde, Folha da Manhã e Rádio Guaíba, de Porto Alegre.

Outro livro de grande repercussão do autor é  “A Patrulha dos Sete João”, em que narra as aventuras e o cruel assassinato de seu bisavô, Joseph Meurers (naturalizado brasileiro com o nome de José de Morais), em que compõe quadro tenebroso da violência na Revolução de 1893. A tudo isto deve-se acrescentar que o escritor nasceu e – hoje, aposentado das atividades acadêmicas -, vive em Caçapava do Sul, na região da Campanha, próxima à fronteira do Uruguai, que foi a primeira base política de Bento Manoel, antes de se mudar para Alegrete.

Em Caçapava, quando foi embora, o caudilho deixou como chefe político, em seu lugar, o tenente-coronel Joaquim da Silva Borges, pai do general Osório e ancestral do autor, integrante da linhagem Osório Torres, que tem como matriarca uma das irmãs do patrono da Cavalaria.

Caxias e Osório

Essa proximidade entre Caxias e Bento Manoel, articulada por Manoel Luiz Osório, é um dos fatos mais interessantes da carreira destas duas das maiores expressões brasileiras no Século XIX. Explica-se aí uma aparente ambiguidade política do Duque de Caxias: no Senado e na política nacional, o duque era integrante disciplinado do Partido Conservador, mas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina compunha-se com os liberais históricos, a facção mais radical do Partido Liberal, os herdeiros dos antigos farroupilhas republicanos.

Bento Manoel foi apresentado a Caxias pelo então major Osório, costurando a negociação para a pacificação do Rio Grande do Sul. Nesse acordão, Caxias obteve apoio à sua candidatura dos recém-pacificados ex-rebeldes para ser o primeiro presidente da província recém reincorporada ao Império.
 
Bento Manuel Ribeiro
Seu nome emergiu pela indicação do próprio Bento Gonçalves, feita pessoalmente pelo ex-presidente da República ao imperador Pedro II. Depois disso, os antigos farrapos elegeram Caxias senador, em 1846. Caxias, conservador, Osório, Liberal, só foram romper nos últimos meses de vida dos dois, em 1879, quando ambos eram senadores pelo Rio Grande do Sul.

Herói ou traidor?

Esta crônica visa chamar atenção para esse livro que é um complemento a quem se interessa ou se dedica a estudar a História do Brasil. Bento Manoel Ribeiro é uma figura pouco conhecida, tratado como coadjuvante de lutas e rebeliões regionais. Entretanto, em seu tempo era uma peça central nos quadros político e militar do Brasil.

Não deixou grandes ditos nem escritos. Homem de poucas letras, criado no interior, alfabetizado e educado precariamente, autodidata, como era padrão. Seria lembrado mais por sua participação e decisões em fatos relevantes. Porém, suas circunstâncias o arrastaram a posicionamentos que geraram inimizades, que levaram sua vida ao esquecimento, ignorado pelos historiadores engajados e que chega aos dias atuais com a biografia comprometida.

O destacado historiador Alfredo Varella, autor do livro básico da historiografia oficial, “A História da Grande Revolução”, demoniza a figura de Bento Manoel, qualificando-o com o pior epíteto que pode colar num político gaúcho, o chamado “vira-casaca”. Isto por causa de sua primeira atitude polêmica, apoiando a posse na presidência da província de seu primo, Araújo Ribeiro, vetado por parte dos revolucionários de 1835, que estavam dominando a capital.

Em decorrência disso, comandou a operação que redundou na derrota militar dos farrapos e na prisão do líder político do movimento, Bento Gonçalves (ainda não tinha sido proclamada a República Riograndense) na Batalha da Ilha do Fanfa, nos arredores de Porto Alegre. Os farroupilhas foram derrotados quando pretendiam cruzar o Rio Jacuí. Então foi tachado de traidor.

Dois anos depois, Bento Manoel voltou aos quadros revolucionários, quando prendeu e depôs outro governador, o brigadeiro Antero de Brito, em 1837, sucessor de seu primo Araújo Ribeiro, causa de seu rompimento com os republicanos, passando-se, outra vez, para o lado dos rebeldes. Duas vezes traidor.

Por fim, articulando-se com Caxias por sugestão do futuro general Osório, voltou outra vez às hostes imperiais. Três vezes traidor.

No entanto, visto sob o ângulo das lutas internas do Partido Liberal, suas mudanças de lado seriam justificadas por necessidades políticas, por questões de espaços partidários e de lealdades familiares. A partir desse momento continuou até o fim da vida integrando a facção dos antigos farroupilhas no Partido Liberal Histórico.

Algo que se repete até hoje em muitos estados: no Rio Grande, eram adversários de morte; nos parlamentos nacionais as duas facções votavam com o partido. Coisas da política. Mas não é assim que se o vê.

Passo do Rosário

Estas idas e vindas durante a Revolução Farroupilha foram a controvérsia mais duradoura em sua biografia. Outra, de grande alcance, foi sua participação (outros dizem omissão), na Batalha do Passo do Rosário, em fevereiro de 1827.
 
 
Quando os exércitos brasileiros e os castelhanos entraram em combate, Bento Manoel, com seu corpo de cavalaria, estava a 60 quilômetros da refrega, e não se mexeu para apoiar o exército do Marquês de Barbacena em dificuldades. Em sua defesa, o então coronel argumentou que o comandante em chefe não mandou ordens para que deixasse sua posição, no Passo do Umbu, onde deveria impedir a retirada das forças argentinas. Os brasileiros preferiram atribuir a derrota (parcial) ao caudilho, em vez de um desastrado comando do general mineiro.

A favor desse personagem que aparece com biografia tão ambígua na História do Brasil pode-se destacar sua bravura pessoal e seu nacionalismo. Naquela época em que se formavam as nacionalidades territoriais, Bento Manoel foi o que hoje se chamaria de um patriota intransigente.

Viveu em meio a conflitos armados desde 1811, quando participa da primeira expedição para a reconquista da margem esquerda do Rio da Prata (perdida com a entrega aos espanhóis da Colônia do Sacramento, em 1750) , até seu derradeiro comando em chefe do Exército Brasileiro em operações no Uruguai, designado por Caxias para substituí-lo, entre 17 de outubro e 7 de novembro de 1851, quando deixou no comando e, doente, retirou-se do front.

Filho de tropeiro

O general viveu ainda quatro anos, já recolhido à sua residência, em Porto Alegre, longe dos campos de batalha, mas ainda ativo na vida política do Rio Grande do Sul.

Bento Manoel Ribeiro nasceu em Sorocaba, São Paulo, em 1783. Seu pai, Manuel Ribeiro de Almeida, foi um tropeiro profissional que levava rebanhos de mulas e, eventualmente, de gados equinos e vacuns, do Sul para o mercado dessa cidade, a maior tablada do Brasil, que supria de animais de carga as minas e lavouras do Sudeste, Nordeste e do Norte.

Percorria rotas hostis, em territórios estrangeiros (cruzando domínios da Espanha e dos jesuítas das Missões). No Rio Grande do Sul tinha amizades com militares e guerrilheiros que ocupavam as terras recém legalizadas pelo Tratado de Madrid.

Um desses amigos era o major de Engenharia Antônio Adolfo Charão, na verdade Schramm, nome de seu pai, médico alemão radicado no Rio, que se graduou na Escola de Desenho e Fortificações, raiz profunda, ainda nos tempos da colônia (quem diz que não havia ensino superior no Brasil antes da vida da Corte em 1808?) do atual Instituto Militar de Engenharia (IME), que formava engenheiros especializados em construção e manutenção de trincheiras e muralhas das fortalezas e bastiões.

Antônio Adolfo decidiu simplificar seu nome para uma grafia aproximada à pronuncia portuguesa fundando, assim, no Rio Grande, a família Charão, que até os dias atuais tem grande relevância no Estado.

Pois bem, o major Charão servia no Forte Jesus Maria José em Rio Pardo, nos últimos anos do Século XIX. Nessa posição, aproveitou-se do vazio legal da incorporação do extremo sul em decorrência do Tratado de Madrid.

Registou, por compra ou ocupação, grandes porções de terras nas regiões que atualmente integram os municípios de Caçapava do Sul e São Sepé, que eram parte do município de Rio Pardo. Isto é importante porque foi o major que fez a educação de Bento Manoel. A criança, ainda com cinco anos de idade, foi “dada” por seu pai ao militar, como um presente, para ser criado como filho adotivo, um costume corrente naqueles tempos, quando se dava filhos ou filhas às famílias amigas para criar.

O menino, que foi transportado de Sorocaba a Rio Pardo deitado numa cesta de vime chamada Jacá, cresceu numa das fazendas do major, até a adolescência, quando, aos 17 anos, foi incorporado como soldado raso no Regimento de Milícias de Rio Pardo, em 1800. Era assim a vida nos pampas.

Milico e fazendeiro

Bento Manoel logo se revelou, no Exército, mandão e talentoso para comandos. Por isto, seu padrinho retirou-o das fileiras e o mandou para sua fazenda, onde se converteu num profissional do agronegócio. Esta foi uma outra carreira do general, pois ao morrer, em 1855, deixou uma fortuna incalculável em fazendas e rebanhos. Foi um dos produtores mais dinâmicos e progressistas, respeitado como ruralista, um dos homens mais ricos da província do Rio Grande do Sul.

O livro destaca, também, outras lendas em torno do personagem. Uma delas seria um pacto com um duende árabe, a Salamandra, uma princesa moura que daria fortuna a quem fosse abençoado. Com isto, explicava-se como Bento Manoel amealhou uma fortuna incalculável.

A princesa, metamorfoseada numa lagartixa, habitava uma caverna na estância do general, no morro do Jarau, entre Quaraí e Uruguaiana, daí o nome da lenda recuperada pelo escritor Simões Lopes Neto, intitulado a Salamandra do Jarau (contada em filme do cineasta gaúcho Beto Souza). Além disso, era dado a sortilégios e truques. Uma descrição realmente surpreendente para um herói nacional.

A influência de descendentes de Bento Manoel perdurou até 1920, pelo menos. Filhos, netos e afilhados deram continuidade a seu legado.

Um deles, Demétrio Ribeiro, foi deputado, senador e um dos chefes da Revolução Federalista (1893/95); seu neto, Bento Manoel Ribeiro Carneiro Monteiro, foi general do Exército e prefeito da cidade do Rio de Janeiro de 1910 a 1914; outro neto, Vitorino Ribeiro Carneiro Monteiro foi governador do Rio Grande do Sul (presidente do estado) no período caótico do governicho (1892) , deputado federal e senador, em 1907.

O último descendente a ter vida política, embora indiretamente, foi sua neta Amália, que se casou com Pedro Chermont, filho do Visconde de Ariri, que foi comandante estadual da Guarda Nacional e, ainda na monarquia, presidente da província do Pará.

Batalha do Sarandi

Sua grande mágoa sempre fora a derrota na Batalha de Sarandi, em 1825, quando foi batido pelo exército rebelde uruguaio, que determinou, enfim, a independência do País vizinho. Na retirada, prometeu que não faria a barba enquanto não submetesse seus inimigos.

Não cumpriu a promessa da barba, mas, com apoio de Caxias, voltou ao Uruguai em 1851 à frente de um exército vencedor, pagando, assim, sua promessa. Morreu de alma lavada.

Até vingar o desastre de Sarandi, com a gentileza de Caxias, quando logo depois guardou suas armas e se retirou para sua chácara em Porto Alegre, onde faleceu em 1855, foram 40 anos. Desde a marcha do então jovem terceiro sargento (furriel) do Exército de Observação, enviado por Dom João VI como uma espécie de força de paz da ONU de nossos tempos (grosso modo), para separar portenhos e montevideanos que se engalfinhavam numa guerra civil , em meio ao vazio de poder devido à prisão dos reis espanhóis ( Carlos IV e seu filho Fernando VII) aprisionados e depostos por Napoleão Bonaparte.

Uma das propostas tresloucadas que estava devido à ilegitimidade que desabou sobre o poder colonial e que não pode ser suprido pelos colonos sem rei foi coroar a princesa real portuguesa, Carlota Joaquina de Bourbon. Dom João VI (ainda era apenas príncipe regente) estancou essa sangria mandando seu exército deter a marcha, agindo apenas como uma advertência aos beligerantes.

Os portenhos embalaram suas bagagens e voltaram para Buenos Aires. Carlota não subiu ao trono. Dom João queria o Uruguai para si.

De soldado à marechal

Neste episódio, Bento Manuel destacou-se como um líder de tropa abusado e matreiro, iniciando uma carreira que o levou ao posto mais alto da hierarquia militar do País: de soldado raso da milícia colonial, ainda um adolescente, a Marechal do Exército Imperial de Dom Pedro II.

Numa carreira desabalada, levou um pequeno contingente de Maldonado até Paissandu, na foz do rio Uruguai, numa manobra estratégica que impediu a junção das forças uruguaias de José Artigas, com os argentinos de Buenos Aires, que poriam em risco a expedição brasileira. Em Maldonado estava o quartel general do comandante português, Dom Diogo de Souza, primeiro capitão general da recém-criada Capitania D’El Rey de São Pedro do Rio Grande, e também limite político para a missão da ofensiva do Exército de Observação. Voltou da guerra como herói, iniciando sua legenda.

Revolução Farroupilha

Antes de encerrar é preciso esclarecer mais um pouco os dois acontecimentos que embaçaram a biografia de Bento Manoel.

O primeiro deles é sua ambiguidade na Revolução Farroupilha. A guerra civil começou, em 20 de setembro de 1835, como um levante maciço do Partido Liberal para depor o presidente Fernandes Braga, recém nomeado pela Regência.

Braga apresentava-se, no Rio, como um liberal de velha estirpe: formado em Coimbra, ativista do Sinédrio na Revolução do Porto, maçom, foi festejado pelos liberais, que assim, assumiriam o poder na província. Também acabava de tomar posse, em março o seu primeiro parlamento regional.

Chegando a Porto Alegre, Braga encontra-se com seu irmão Pedro Chaves, chefe local dos Regressistas (logo depois renomeados conservadores), e se desvia dos correligionários.

No governo, Braga virou a casaca e abandonou os liberais republicanos, aliando-se a seu irmão e aos antigos monarquistas. Demite daqui, persegue dali, em poucos meses botou os liberais em pé de guerra. Estes, em sua maioria eram milicianos veteranos das guerras do Prata. Não tardou e todos se uniram, derrubando o governo.

O regente uno, padre Diogo Feijó, que foi eleito (sim, o regente foi eleito numa eleição geral e nacional vencida pelos liberais republicanos) destituiu Braga e nomeou para seu lugar o deputado gaúcho mais votado, o liberal Araújo Ribeiro.

Chegando à província, o novo governador não pode assumir em Porto Alegre, pois uma fake news publicada no jornal O Constitucionalista, encaveirava Araújo Ribeiro, produzindo um racha no partido. Bento Manoel, que era um dos deputados na Assembleia, apoiou a posse do novo presidente.

Naqueles tempos belicosos, com uma câmara composta majoritariamente por oficiais recém-saídos da guerra, tudo degenerou em luta armada. Os farroupilhas então cravaram em Bento Manoel a pecha de traidor.

Em 1837, com a queda de Feijó, subindo um governo conservador, Araújo Ribeiro foi substituído, nomeando-se para seu lugar um general do Exército. Sua primeira providência foi mandar prender Bento Manoel, que era o comandante de armas do antigo governo legalista do primo. Consequência: o sucessor, general Antero de Brito, acabou prisioneiro de Bento Manoel.

Então o caudilho voltou aos farrapos, e ganhou o posto de comandante em chefe do Exército Republicano. Mas não era entusiasta da secessão.

Deixou o comando do Exército Republicano, recolhendo-se à sua fazenda em Alegrete. Voltou à ativa levado por Osorio, filho de seu grande parceiro, às fileiras legalistas, atuando tanto como chefe militar e quanto de ativista da pacificação. No fim, depois com de algumas batalhas e tratativas políticas, compôs uma aliança de Caxias com os rebeldes, levando a um acordo de cessar-fogo, chamado pelos farroupilhas de Tratado de Ponche Verde, reincorporando o Rio Grande do Sul ao Brasil.

Caxias foi nomeado presidente da província e se elegeu senador. Os farroupilhas tiveram anistia ampla geral e irrestrita, incorporados ao Exército Imperial no mesmo posto que ocupavam no Exército Republicano, menos os generais, que foram nomeados coronéis (embora todos, mais tarde, tenham sido promovidos a brigadeiros). Bento Manoel nunca foi perdoado nem pelos republicanos nem pelos monarquistas, ficando mal na História.

Ribombos de canhões

A segunda acusação deve-se a seu papel na Batalha do Passo do Rosário. Quando chegou ao a Acampamento da Carolina, na atual fronteira do Brasil com Uruguai, o comandante do Exército Imperial, recém nomeado, marquês de Barbacena, encontrou um quadro desolador. A tropa em frangalhos, soldos atrasados há meses, e um desanimo geral. Na outra ponta, o Exército Republicano argentino integrava-se com os rebeldes uruguaios para invadir o Brasil.

Nessa situação, Barbacena apoiou-se nos caudilhos gaúchos para formar duas divisões de cavalaria ligeira do Exército Imperial. Ala direita ficou com o coronel Bento Gonçalves (futuro presidente da República Riograndense – depois chamada jocosamente de República de Piratini).

A cavalaria gaúcha atuava nos flancos da coluna central do Exército. Atuando no flanco direito, Bento Manoel recebeu ordens explicitas do marquês para atacar uma força argentina, comandada pelo coronel Messena, que estava no Passo do Umbu, guarnecendo a estrada para a retirada da força principal argentina. Derrotados os portenhos, entrincheirou-se nas barrancas do rio Santa Maria.

Barbacena atacou os argentinos e uruguaios pensando estar com vantagem da surpresa. Não ouviu os conselhos do barão do Cerro Largo, comandante da Cavalaria, de mandar chamar e esperar por Bento Manoel. Com isto, não mandou ordens para ele abandonar a posição no Umbu. A assim aquela divisão permaneceu onde estava, aguardando o aparecimento dos retirantes castelhanos (que nunca apareceram por ali).

Derrotado numa batalha de resultado duvidoso (hoje o Brasil reconhece oficialmente a derrota – até a década de 1990 os historiadores brasileiros diziam que foi empate), pois nenhum dos dois exércitos foi destruído, admitindo-se que Barbacena perdeu porque foi o primeiro a bater em retirada (os argentinos também se retiraram sem perseguir o inimigo “derrotado”).

Voltando à corte, o marquês culpou Bento Manoel por não ter acudido. Mesmo sem ordens explícitas deveria ter marchado. Embora os ribombos dos canhões fossem ouvidos no seu acampamento, ficou onde estava. O caudilho justificou-se dizendo acreditar que supunha a artilharia brasileira botando os argentinos a correr. Não adiantou, foi-lhe impingida a culpa pelo desastre e assim ficou até hoje, embora isto não tenha prejudicado sua carreira militar, tanto que chegou a marechal do Exército.

As histórias, peripécias, vitórias e derrotas deste brasileiro singular estão nesse livro, à disposição dos aficionados pelos bastidores da História do Brasil. Era o livro que faltava. Aí o leitor vai encontrar uma leitura agradável, pela qualidade do texto, interessante e esclarecedora, pela relevância do tema, e fundamental porque elucida fatos e personagens decisivos naqueles tempos tumultuosos da formação da nacionalidade brasileira e consolidação de seu território.


Por José Antônio Severo
Fonte: portal Os Divergentes

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