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A casa branca de Lalau Miranda

A CASA BRANCA DE LALAU MIRANDA Sólita, olvidada, portas abertas, janelas escancaradas, calor de rachar ou invernia medonha, lá está ela, ab...

A CASA BRANCA DE LALAU MIRANDA Sólita, olvidada, portas abertas, janelas escancaradas, calor de rachar ou invernia medonha, lá está ela, abandonada, a morada altaneira, bispando até onde a vista alcança, com seus olhar triste e vazio, aquela que foi um registro perene de um lar serrano e gaúcho, testemunha viva de um dia que já se foi, relicário de rodeios e marcações, aniversários, velórios, bailes e festas de São Sebastião. Diziam muitos, daqueles tempos, que fora construída encastelada no alto da mais alta coxilha, visão panorâmica, dum tempo ainda, em que as matas verdejantes bordavam o arroio Quaraim, infestadas de índios Coroados, para defesa própria, e para manter suas roças e alimárias, bem perto dos olhos vigilantes do coronel Francisco, o patriarca de numerosa descendência, de brancos, pretos, índios e até paraguaios, de sobrenome Miranda. Fazendola a perder de vista, naqueles tempos, coalhada de gadaria, foi armazém, pouso e negócios de tropeiros, guascas e birivas, quando patacões e bolivianos, eram a moeda de troca para a compra e venda de muares, gado vacum e para comprar açúcar, sal, armarinhos e outras necessidades, em Rio Pardo, a troco da erva, levada em longos dias de carreteadas, que numa dessas levou o guri Estanislau para estudar, e voltar homem feito no saber das letras. Dizem que o filho herdou a fazenda e as qualidades do pai, que andara como Voluntário da Pátria na Guerra da Tríplice Aliança, e criado que fora nas lides campeiras, era ginete dos pacholas, levado, aprontava floreios e gauchadas com pingo de lei, disposto e rico uma barbaridade, por qualquer lá... me alcança um mate... de uma prenda lindaça, dava-lhe jóias e pontas de gado, e com certeza lhe estendia o pala, e por cima ainda floreava seu violão, sempre à mão, pendurado na laranjeira. Sua fama, decantada em prosa e versos, num tempo em que nem estafeta percorria, correu léguas de distâncias, e o tempo e as proezas passadas, tornaram-se lendas na região do albardão do planalto serrano, que se derrama daqui até lá pelo arroio Iguariaça, e como andam juntas, justiça e mérito, depois da União Gaúcha de Pelotas, de Ijuí, do 35, surgiu em sua homenagem, em 1952 o Centro de Tradições Gauchas Lalau Miranda, hoje já meu sexagenário companheiro, que de tão forte e altaneiro, que era, e é, já elegeu de Vereador até Deputado Federal, e deu notoriedade a muita gente boa de Passo Fundo. Quando da sua criação, os parentes fizeram a doação de um um quadro a óleo do Lalau; da espada, e das dragonas do coronel; heranças daquela guerra e outras tantas coisas mais, por outros e outros, que viam naquele modesto galpão a reencarnação dos galpões das fazendas e das estâncias, onde se ouvia a viola, o violão e o bandolim, onde dançava-se a Quadrilha, jogava-se cavalhadas de lança e argolinha, suas lides campeiras e seus entreveros guerreiros, diziam até que a Farroupilha, foi uma “Rebolução”, isto é, apenas um rebuliço bem grande, nada mais, e como esta palavra, as doações despareceram no descuido, e na poeira do tempo, mas sobrou apenas, uma coisa, da maior importância, que ainda até hoje, está lá, de pé, abandonada, pelos tradicionalistas e alcaides daqui e dali. Não é cuidada, não é tombada, não é restaurada, não é cultuada, e não é lembrada! Até parece que não é, e não foi nada para a história de Coxilha e Passo Fundo. “A Casa Branca da Fazenda Branca de Estanislau de Barros Miranda”.
 
Odilon Garcez Ayres - Cadeira 38 da Academia Passo-Fundense de Letras. NA.: Excertos do Livro “Cerrito do Ouro à Coxilha”, a ser lançado em 2012, pelo Projeto Passo Fundo – Apoio à Cultura. Crônica em homenagem à Gilberto Pacheco, dileto filho de Vila Coxilha, Memorialista do Centro de Letras do Paraná, já publicada pela Revista Somando da Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo, Edição 182 – Ano XVI – Maio de 2012.

Colaboração: Hilton Araldi

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