A dança unindo gerações


Quem estava no ginásio de Santa Cruz do Sul, naquele final de tarde do calor de novembro de 2015, teve a oportunidade de assistir a um dos momentos mais emocionantes que a dança me proporcionou (e nos proporcionou) nos últimos anos.

Digo dança... dança em si, sem entradas e sem saídas, sem criatividades exageradas... inclusive sem concurso... somente a dança básica, executada como deve de ser.

Dança normal. Dança natural: vista, revista, passada, repassada, ensaiada, harmonizada, conhecida, reescrita, e tudo mais por tantos e tantos grupos. Uma dança de conquista, de resposta, de individualidade, de sentimento, de atitude, de graça, de sutileza e de “final-feliz”... exatamente tudo o que vimos naquele final de tarde do palco do ENART 2015, de uma maneira ainda não vista e valorizada.

Quem estava lá comprovou, e certamente aplaudiu e gritou junto com o ginásio, de maneira como há anos não se via em uma dança... em uma dança “simples”... executada “simples”. Não foram nem duas, nem três pessoas que nos confessaram que choraram assistindo àquela apresentação... muitos, inclusive, igualando o sentimento do momento ao de ganhar o próprio estadual.​

Foi a partir de 2014, com o nascimento do FEGADAN, organizado pelo MTG do RS, para valorizar as obras e o pensamento de dança exclusivo de “João Carlos Paixão Côrtes”, que o campeão do mesmo é convidado especial para encerrar o ENART do mesmo ano, numa apresentação/show após todos os grupos.

Em 2015, no segundo ano de FEGADAN, o vencedor do evento foi o CTG Brazão do Rio Grande, de Canoas, entidade tradicional do nosso meio de danças, por curiosidade o primeiro campeão do estado em 1977.

E, como de praxe, encerraram o ENART 2015, com 5 danças escolhidas a dedo para o momento, mesclando danças inéditas no repertório do estadual e outras danças já conhecidas, porém num formato mais espontâneo de se dançar: Chote de troca-par a moda serrada, Tirana-do-ombro, Balaio, a Tirana-do-lenço e a Valsa da mão-trocada.

Mas foi na quarta dança, na Tirana-do-lenço, a mais comum, que todo o ginásio explodiu... quando um casal de convidados especiais entraram... e “quebraram tudo”!

Claro, não eram qualquer convidados... eram dançarinos campeões do primeiro Mobral, campeões dos três primeiros concursos estaduais... e que dançaram inclusive no primeiro FEGART: “Roberto Müller e Iara Müller na sala, para a Tirana-do-lenço”!

Todos os olhares estavam voltados para centro daquele palco, ao casal inusitado e inesperado, que homenageou não só os 30 anos de FEGART e ENART, mas os 40 anos de estaduais e todos os ex-dançarinos e ex-campeões que pisaram desde a criação do FEMOBRAL/MOBRAL no palco de um concurso de danças.

E a ideia de abordar esse tópico partiu de quando o site “Estância Virtual” reproduziu o então vídeo nas redes sociais, recebendo um número de 300.000 visualizações e 400 compartilhamentos. Fato que gerou entrevistas e divulgações do que aquele momento proporcionou para quem passou a vida toda concorrendo em eventos de nível estadual, tendo a dança como modo um eterno de vida.

Me recordo de uma entrevista de “Atahualpa Yupanqui” nessas horas, onde ele cita o que é, o que foi e o que deve de ser o homem crioulo do nosso lugar, seus valores e suas personalidades, com tranquilidade e firmeza de quem é a própria imagem de toda essa gente.

Yupanqui cita e referencia as pessoas antigas de sua (e de nossa) terra, que conheceu e charlou com amplitude e atenção. Pessoas que bailavam as danças rurais de uma maneira bem dançada, sem idéias de festas e de farras: somente como cerimônias rurais, exaltando à terra e o lugar em que pisam.

Me recordo a “Don Ata”, pois foi exatamente isso o que vimos naquele tablado de Santa Cruz, um culto à nossa terra pintada em forma de dança. Vimos uma cerimônia rural, cercada de satisfação, sem intenções de farra ou de festas... totalmente voltada à definição de terra e de lugar.

Tenho tranquilidade (mesmo estando naquele mesmo palco naquele mesmo momento), em falar dessa dança, pois foi como se 14 pares fossem totalmente sugados por apenas um casal central, que estavam ali totalmente por merecimento, sendo ícones de um evento estadual que inclusive começou em seus pés. O grupo de 14 pares funcionou quase como um “mantra”, para um solo principal.

Todos eram um pano de fundo somente, que se fossemos analisar em qualidade (e não é a intenção), foram postos “no bolso” em dança, em interpretação e, inclusive, em culto à nossas raízes. Sem citar os aplausos e gritos, que eram como uma reconciliação com a dança pura e ingênua, dançada em forma de satisfação, pedindo por mais alma em cada passo que um estadual possa apresentar ali naquele templo.

Posso, sim, ser um “parcial” citando o fato... mas sei que realmente devo o citar... mesmo “parcial”, sei que devo reproduzir o que aquilo representou e, se possível, possa deixar de legado para quem dança e pode ouvir o aplauso do lugar. Vi muita dança incrementada com “novidades” e “criatividades” serem aplaudidas e ovacionadas. Porém em uma dança pura, vi pela primeira vez.

Acredito, assim, seriamente no quanto nossas danças devam de ser “cerimônias rurais”. No quanto elas eram cultos a um lugar e uma gente. Algo um tanto próximo aos valores do nosso povo antigo e rural, bem próximo modo elegante e firme que nossos vizinhos argentinos e uruguaios bailam seus temas: sejam zambas, chacareras, pericons ou chamamés litoralenõs.

A década de 70 (envolta por grupos como “Os Gaúchos”, “Os Múuripás” e “Tropeiros da tradição”, por exemplo), apesar de levar adiante uma criação coreográfica bem longe do nascedouro dos nossos temas, tinham princípios claros de culto reproduzidos em cada dança apresentada. Estampa esta que fomos perdendo ao longo dos tempos, pondo conotações de festas e de simples conquistas amorosas em nossas apresentações.

Mas ainda creio e concordo com “Yupanqui”, que nossos temas são símbolos, que devem de ser cultuados, com o maior respeito e a maior dedicação de dança e de crioulismo. São temas que não deixavam espaços para farra, tornando nosso folclore um “avatar” de festa e divertimento apenas. Nossas danças rurais possuem sentido de terra, de decência e respeito. Quase como uma reza (já que dançar é rezar duas vezes, segundo ele).

Quem canta e dança nossos temas rurais, não os fazem com força. Não devem fazer com força. Nenhum culto é gritado. Quem canta com força é porque tem decibéis, não necessariamente alma. Quem tem força tem bruteza. Não tem nada a se comparar com ritual... com falar com a terra... com reverenciar nossos antepassados. Não tem haver com questões de felicidades, de ânimo ou de amor ao solo. Nenhum homem diz a uma mulher “eu te amo” aos gritos, com força, com bruteza. Não se pode amar a terra e cultuar nossa gente com uma caricatura de força.

Para tanto digo claramente: A tirana-do-lenço do ENART 2015 teve sim culto, teve reza, teve alma, satisfação e gauchismo... teve 50 anos de dança no lombo, justamente para ser levado a sério e ser deixado de legado!

Bom... O texto foi longo novamente...
...e para a milonga não se espichar mais, nada mais justo que deixar todos com esse casal que está sendo comentado e compartilhado entre os amantes do tradicionalismo nas redes sociais da atualidade...

Com vocês, diretamente do Enart 2015, os primeiros campeões do estado,

Roberto e Iara Müller, na sala, para a Tirana-do-lenço!

Veja o vídeo:




Fonte: portal Estância Virtual
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Italo Dorneles

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