Tradicionalidade ou Nostalgia?


TRADICIONALIDADE (OU NOSTALGIA?) 

"A associação de informações, hoje tão próximas da gente (a qualquer momento e em qualquer dispositivo móvel e portátil, inclusive), nos trouxe facilidade e rapidez para consultar a matéria que queremos, nos momentos que mais – ou menos – precisamos. Uma simples curiosidade, clicada numa tela, nos traz “miles” de informações sobre qualquer elemento.

Nessas épocas tecnológicas, portanto, não se pode crer que o somatório dessas informações consultadas e adquiridas, todas, seja o que realmente revele os porquês das dúvidas que tentamos sanar... No nosso caso, tradicionalista ou folcloricamente falando.

A quantidade infindável de informações que temos hoje, deve, justamente, servir para interpretarmos e entendermos, entre elas, quais as mais verídicas, ou as verazes realmente, além das mais sérias, sóbrias, cultas, fundamentadas, didáticas e que realmente acrescentem elementos sadios aos motivos das nossas intenções Tradicionalistas. Pois, Tradicionalismo não é um balaio, onde se despeja ali elementos (todos e dos mais variados), e quem coloca a mão nele, saca o que lhe interessa ou o que lhe “der na telha”. Não é uma “basura”. Em resumo: A quantidade atual de informação serve para avaliar e reavaliar elementos, aparte a somatórios infindos e sem padrões.

Tradicionalismo é um “movimento” (sinônimo de: “circulação”, “agito”, “abalo”; antônimo de: “calma”, “tranquilidade”, “estancamento”). Tradicionalismo é um “movimentar” de símbolos (com culto, valorização e divulgação dos mesmos), não de histórias e “estórias” somadas entre si. Até porque, o simbolismo dos fatos está inserido numa visão do campo da “Memória”, que se diferencia totalmente do campo da “História”. São coisas apartes! Nem toda História é símbolo para algo, ainda mais para os “rumos sãos e sadios” que queremos para nosso Tradicionalismo. Nem toda história distribui simbologias positivas, para a manutenção e a nossa permanência no rol de uma cultura nacional e mundial, digna de ser disseminada.

O que queremos divulgar de nós?

Tudo é história, mas muitas não “significam” nada, em se tratando de simbolizar um tipo realmente gaúcho, com seus valores tradicionais.

Não raro, se percebe o uso, inclusive incorreto, da palavra TRADICIONALIDADE. A Tradicionalidade remete à “qualidade”, ao que condiciona ao que é Tradicional. Porém, aí que está o pecado. Há de se fazer sempre uma segunda pergunta: Tradicional ao que? Tradicional com o que? A que momento? A que história? A que “estória”? Ao nosso Folclore? Ao show? Ao concurso? Ao que somente já foi realizado dentro do concurso ou de instituições? A tudo e qualquer coisa que vimos antes?

Associado à Tradicionalidade, ainda, perigosamente, achamos a palavra NOSTALGIA, à admiração excessiva aos aspectos de algum passado. Num clássico filme de Woody Allen, “Midnight in Paris” (“Meia-Noite em Paris”), numa cena que se passa no belo palácio de Versailles, há uma citação um pouco irônica sobre Nostalgia, porém muito verdadeira, para muitos casos, dos quais abrangemos. Nela, se diz que a “nostalgia é negação; negação de um presente doloroso. E o nome dessa grande falácia é ‘complexo da era dourada’. A idéia é errônea, de que, uma época diferente é melhor àquela em que vivemos. Isto é uma falha da imaginação romântica das pessoas, que tem dificuldades de enfrentar o presente!” Isso diz um personagem do consagrado filme.

Essas duas “intenções” – Tradicionalidade e Nostalgia – aliadas, podem provocar um grande “descrédito” e “desserviço” a nossa cultura e a nossa Tradição Gaúcha, como um todo. É o “fato isolado” sobrepondo-se ao “coletivo cultural”.

Muitos possuem longas e intensas histórias pessoais de vida, dentro do Tradicionalismo. Cruzaram caminhos pedregosos, construíram estradas para seus rumos, ensinaram pessoas (mal ou bem, fácil ou difícil, gratuita ou monetariamente), etc. E, a maioria desses, principalmente, concorreu – a grande maioria. Esses caminhos todos geram lembranças de bons momentos, energias, vibrações, sentimentos e amigos que marcaram, e que constantemente pensa-se em retornar e revivenciá-los de alguma maneira, em algum oportuno momento (a maioria, por achar que, dentro desses momentos, existem, também, símbolos sadios para se deixar a outros Tradicionalistas).

Porém, ao encontro do inicio do texto: A história pessoal de uma pessoa não necessariamente é a história da dança. A história dentro de uma certa entidade ou de um certo concurso não é necessariamente a história da nossa cultura: O "pessoal" difere do "coletivo"! A história da dança – repetimos – não é um balaio, onde se despeja ali elementos (de todos e dos mais variados lados), e quem coloca a mão nele, saca o que lhe interessa ou o que lhe “der na telha”. A história da dança é feita de símbolos e de rumos sadios que esses símbolos devem ou deveriam deixar.

Também vivemos muita coisa dentro do Tradicionalismo (algumas, inclusive incríveis e inacreditáveis se de dizer; marcantes; históricas). Mas merece isto retratar a história do Tradicionalismo, como um símbolo dele? O que vimos e fizemos, são histórias de pessoas inseridas no Tradicionalismo, não a História do Tradicionalismo: há de se diferenciar! É um “fato isolado”, não “coletivo”, por mais que outras pessoas tenham gostado ou se inseridas nele.

Por isso, nosso saudosismo e nostalgia pessoal não deve pesar para a Tradicionalidade de algo!

No inicio das arrancadas Tradicionalistas, das nossas danças, muita coisa se portou errônea, inverídica, duvidosa, fútil, por parte dos “conjuntos” e “instrutores, pegos de orelha” (como já disse nosso folclorista maior). E toda informação nova demora algumas gerações para se inserir ao processo, e com a dança não haveria de ser diferente. Muitos elementos vistos e escutados, inclusive passaram por interpretações enganosas, a maioria trazendo referências de gaúchos platinos (evidenciados pelo cinema, pela mídia e pela TV), esquecendo-se totalmente das nossas heranças lusas, brasileiras e caboclas (se enganando sobre o fato de que há muito “gaúcho” no PR, SP, MG, que lá são chamados por outras nomenclaturas, usando outros trajes, porém de mesmas heranças e troncos culturais que os nossos).

Quando se fala hoje em Tradicionalidade, parece que há uma incompreensão, às vezes, por parte de alguns setores diversos, entendendo que se deve buscar e recuperar TUDO o que veio antes da gente, em termos de danças. Que tudo era tradicional, verdadeiro, autêntico, ou representativo à nossa cultura. Que novas informações são INVENCIONICES. Mas, tudo veio antes da gente... Inclusive o erro, não!?

Devemos abraçar o erro (só por já ter estado inserido em nosso processo)?

O que define ser Tradicional (ao processo de Tradicionalidade): O que perpetuou por mais tempo? O que perpetrou por mais tempo dentro de um processo “institucionalizado”? O que mais pessoas realizaram? Os elemento de massa? O que esta identificado em mais livros? O que vendeu mais livros? O que tem mais "views"? O que mais pessoas viram? Ou, simplesmente o instintivo?

Sabemos – bem sabemos – que sempre a informação mais “culta” (e mais completa) ocupa “menos território”, chega a uma quantidade menor de pessoas. As pessoas em massa costumam optar pelo “comum” e o mais “simples”, inclusive nos processos de aprendizagem, muitas vezes beirando o “banal”. Se a informação mais “culta” não for inserida ao processo, não precisa ser estudada, não precisa ser trabalhada, muito menos valorizada: pensa a massa. Muitas de nossas escolhas, decisões e reações, em se tratando de danças gaúchas, são retratadas por ações “comuns”, não valorizando necessariamente o "culto". Tradicionalidade deve ser baseada em culto, mesmo que conhecida por um número menor de pessoas.

Devemos ser didáticos... Mesmo que demore mais tempo!

Parece importante se salientar isso, devido ao fato de que, algo que se perpetuou por muito tempo, não necessariamente é tradicional para com nossa cultura (repetimos: para a nossa cultura – símbolo de uma gesta, uma gente e um culto). Muitos elementos se perpetuam, em nossos concursos, porque, no inicio das arrancadas Tradicionalistas, não se possuía referência sobre sua clareza, se mantendo, “mesmo errôneas”, ao mesmo. Os exemplos são vários. Alguns encerraram suas vidas em tempo, outros tardiamente, outros ainda se manter. E, muitos voltam (mesmo já dito que errôneos).

Em que momento perdemos a capacidade de analisar erros passados (mesmo nossos)?

Há coisas que não são cíclicas... E, sim, "bola pra frente"!

Lembram do Malambo Argentino (tinha até concurso de Malambo em rodeios)? Do Bombo-Leguero? Da Chacarera? Da Polca Correntina? Da bota branca? Das ditas “russilhonas”? Dos "shows" turísticos? Das danças ligeiras? Da mecânica? Da "harmonização" de pares independentes? Da Chula ser dança de disputa de dois homens por uma mulher (pobre “china”, deixando-se ser disputada)? Das danças de “lutas pírricas” (Facões?)? Há também o “cajón peruano”! Lenços na cabeça com chapéus de palha! Trajes Birivas! Trajes de serviço representando eventos sociais! Comportamentos de “ralé” em eventos representando a sociedade! "Faeneiros" dançando com "mulheres" (não havia sociedade á época)! E tantos e tantos e tantos mais momentos errôneos para a nossa tradição rio-grandense (usam-se a desculpa de: “lúdico”) e mal explicados culturalmente, que tivemos e temos inseridos dentro de toda nossa história Tradicionalista e, consequentemente, na história da dança (alguns escritos em livros antigos, sem nem se analisar o nível cultural do relator e de seus porquês). Quantas desses se acabaram? Quantas dessas cedo, ou tardiamente? Quantas dessas retornaram? Quantas estão retornando? Quantas nem se discutiu ainda?

Por isso sempre a pergunta: Tradicional com o que?

Com o concurso? ...Mesmo sabendo que o concurso nem sempre, no passado, ali se perpetuou o cultural, realmente!? ...Mesmo sabendo que por muito se perpetuou o “errôneo”!?

Ou queremos o Tradicional com nossa gente, com nossa dança verdadeira, espontânea, os elementos da nossa sociedade coletiva (diferencia-se coletiva de “fatos isolado” – não entra-se nesse mérito por achar que é já sabido)? Tradicional com valores culturais nossos, perdidos?

Tradicional com o que, insistimos?

Por fim, fechando a porteira, que já tá comprida a milonga.... Muitos tem trazido elementos de uma “história” e “visão pessoal de vida tradicionalista” (um fato isolado) para impor a uma coletividade (tradicionalista ou concursiva), como sendo Tradicional com a cultura gaúcha, sem ao menos realizar ou permitir que realizássemos uma ponderação, uma peneira ou um repasse histórico (com todas as informações que temos hoje a disposição – citadas lá no início do texto), para saber o que desse material é “errôneo”, não nos representa e não é simbolo nosso. Para saber o que desse material já se provou que é “errôneo” e já se retirou há anos – ou décadas – do nosso processo bailarino, por ser realmente “erro” cultural.

Tem se trazido muita coisa “inautêntica”, simplesmente na ótica de que “isso já fez parte do que vivemos” ou dos “eventos que concorremos”.

Movimentos são feitos de pessoas... Mas, há de se diferenciar massa de cultura. Tradicional para a vida de alguém não é ser Tradicional para com a nossa cultura. A Tradicionalidade deve ser tratada com cultura, não com “visão pessoal”, ou somatório de "vivências pessoais"... Até porque, alguém já disse: “Opinião é diferente de conhecimento!”

Cultura Gaúcha não pode ser um espaço para “achismos”... Ou para um “amontoados de histórias mal contadas” (Estórias?)...

Em um curto espaço de tempo teremos, assim, dentro do nosso culto Tradicionalista, um “cesto de supérfluos”, onde os folcloristas, cultos, pensadores, sabidos, já haviam retirado do meio, e jogaram tudo ali, por saberem da “basura” desse balaião... E ainda hoje, muitos colocam a mão ali, achando que estão descobrindo um museu de “coisas novas” a se utilizar para com as nossas danças.

Há de se pensar muito... E, principalmente, respeitar. Pois as gerações futuras cobrarão, num curto espaço de tempo, da gente nossa história!

Salve a dança gaúcha!"



Fonte: portal Estância Virtual
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Italo Dorneles

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