O ator Shico Menegat e os diretores Marcio Reolon e Filipe Matzembacher foram receber a premiação em BerlimTeddy Award / Divulgação


Em 1990, o curta Ilha das Flores, de Jorge Furtado, fez história ao conquistar o Urso de Prata no Festival de Berlim. No último final de semana, um outro filme gaúcho, Tinta Bruta, da dupla Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, novamente repetiria a façanha, saindo de Berlim com dois dos prêmios mais importantes do festival alemão, o Teddy Award – para filmes de temática LGBT – e o CICAE - Art Cinema Award, concedido pela Confederação de Salas de Cinema de Arte da Europa – que representa centenas de salas de cinema e funciona como uma garantia antecipada de distribuição comercial no mercado europeu.

Desta vez, um longa-metragem, exatamente 28 anos após a até então inédita premiação de Ilha das Flores, reconhecimento que de certa forma pode ser visto como um incontestável atestado de maturidade da produção cinematográfica local, que segue resistindo e, contra todas as dificuldades e a falta de incentivos públicos, vem conquistando cada vez mais visibilidade internacional.

Na noite de sexta-feira, durante a cerimônia de premiação, na Haus der Berliner Festspiel, quando os apresentadores anunciaram o Teddy de melhor documentário para o também brasileiro Bixa Travesty, de Cláudia Priscilla e Kiko Goifman (sobre a cantora Linn da Quebrada), as chances de Tinta Bruta levar o cobiçado prêmio de melhor longa de ficção pareciam ter ido por água abaixo. Afinal, dificilmente o júri iria reconhecer duas produções brasileiras na mesma categoria. Mas, felizmente, não foi o que aconteceu. O grupo de jurados acabou por corroborar o entusiasmo da crítica e do público desde a primeira exibição do filme, no domingo, dia 18 – ao longo da semana, Tinta Bruta teve mais quatro exibições no festival, todas com ingressos esgotados. Minutos após a premiação, a dupla de diretores não escondia a surpresa:

– Ficamos muito felizes com o anúncio do prêmio de documentário para o Bixa Travesty, mas logo imaginamos que seria muito difícil eles premiarem dois longas brasileiros. Então, quando anunciaram o Tinta Bruta como melhor ficção, foi uma surpresa linda. O Teddy é uma premiação importantíssima para a carreira do filme e para as nossas também. E inúmeros cineastas que admiramos já venceram essa mesma categoria, então é uma noite de celebração linda.

Como bem sublinhou a dupla gaúcha, para se ter uma ideia da relevância do Teddy Award, desde a sua primeira edição, em 1987, foram contemplados com o troféu diretores como Pedro Almodóvar, Todd Haynes, Derek Jarman, Gus Van Sant, François Ozon, John Cameron Mitchell e Ira Sachs, todos no início de suas trajetórias. Ou seja, é um prêmio que tem o dom de impulsionar a carreira internacional dos vencedores, e Matzembacher e Reolon já podem festejar o fato de estarem em excelente companhia.

Ao subirem ao palco, acompanhados pelo ator Shico Menegat, protagonista de Tinta Bruta, para receber o seu Teddy, os diretores dedicaram o prêmio "a todos os LGBTQIs do Brasil", pedindo que, "apesar da atual onda conservadora no Brasil, permaneçamos juntos e fortes, cuidando uns dos outros".

Sobre o significado imediato do Teddy Award para a trajetória do filme a partir de agora, a dupla afirma:

– Por ser a premiação mais importante do cinema LGBT no mundo, o filme passa a ser visto com mais atenção. Já temos confirmação de participação em alguns festivais e ele também será lançado comercialmente em diversos países, o que divulgaremos em breve. No Brasil, a distribuição será da nossa parceira Vitrine Filmes, que sempre acreditou muito no projeto e entrou nele desde a fase do roteiro, mas ainda não temos data definida de estreia.

Já os planos de Matzembacher e Reolon após o retorno a Porto Alegre estão bem definidos:

– Nosso objetivo é, enquanto promovemos o filme em outros festivais, irmos escrevendo nosso terceiro longa-metragem, que já está parcialmente financiado.

Aos espectadores locais, resta controlar a ansiedade e torcer para que Tinta Bruta chegue aos cinemas da Capital o mais breve possível. 
 
 
 
Primeira exibição conquistou a plateia no Festival de Berlim

Domingo (18) à noite, 22h30min. A gigantesca sala 7 do Cinemax X, na Potsdamer Platz, estava literalmente entupida de gente para ver a estreia mundial de Tinta Bruta, segundo longa dos realizadores porto-alegrenses Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, na 68ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Os ingressos esgotados dias antes do início do festival confirmavam o interesse do público alemão pelo trabalho da dupla, que já teve dois de seus trabalhos anteriores, o longa Beira-Mar (2015) e a série O Ninho (2016), distribuídos comercialmente na Alemanha, depois de terem também passado pela Berlinale.

Ao final das quase duas horas de projeção (o filme tem 118 minutos de duração), quando começaram a correr os créditos, ainda embalados pela voz hipnotizante de Anohni – a nova identidade do cantor e compositor Antony Hegarty, ex-Antony and the Johnsons –, que ajuda a potencializar o impacto da última sequência, estouraram os aplausos. Matzembacher e Reolon, junto com seus jovens protagonistas Shico Menegat e Bruno Fernandes, tinham conquistado a adesão de sua primeira audiência. O que logo se confirmaria quando subiram ao palco para receber inúmeros comentários elogiosos ao longo da tradicional "Q&A" (sessão de perguntas e respostas da equipe com o público), da qual também participaram a produtora Jessica Luz, o montador Germano de Oliveira e a diretora de arte Manuela Falcão.

Tinta Bruta conta a história de Pedro (Shico Menegat), um jovem solitário e introvertido que, após reagir de maneira extrema ao bullying sistemático de seus colegas de universidade, precisa enfrentar um processo criminal difícil, enquanto sobrevive fazendo performances eróticas na internet, com o corpo coberto de tinta fosforescente, escondido pelo codinome de Garoto Néon.

Ambientado em uma Porto Alegre noturna e hostil, brilhantemente fotografada por Glauco Firpo, o filme revela um notável amadurecimento dos diretores em relação ao seu longa de estreia, Beira-Mar, que, embora tivesse muitas qualidades, ainda era um projeto menor, com orçamento pequeno e bem menos ambicioso em termos formais e dramáticos.

Dividido em três atos, que gradativamente vão apresentando os conflitos de seu atormentado protagonista em seus constantes deslocamentos entre o mundo real e o virtual, Tinta Bruta revela-se uma experiência estética ainda mais intensa para os espectadores porto-alegrenses. Matzembacher e Reolon agregam ao drama íntimo de Pedro um forte componente político, retratando de maneira contundente o atual abandono da capital gaúcha por parte de seus gestores públicos – "Essa cidade parece um purgatório", afirma um dos personagens, ao se referir aos seus habitantes cada vez mais acossados pela violência urbana, pela falta de perspectivas e pelo desejo de partir em busca de melhores oportunidades.

Parte fundamental para o belo resultado alcançado deve ser creditada ao seu extraordinário protagonista, o estreante Shico Menegat, que permanece praticamente o tempo inteiro na tela e consegue, através de uma atuação marcada por silêncios, gestos mínimos e olhares expressivos, criar um personagem de enorme complexidade, cuja figura lembra em vários momentos os adolescentes dos filmes do americano Gus Van Sant, uma referência assumida pela dupla de diretores porto-alegrenses. Ao lado do também estreante Bruno Fernandes (que antes só havia atuado no teatro), com quem protagoniza sequências de alta voltagem erótica, Menegat aqueceu a noite gelada do inverno berlinense com a luz intensa de seu olhar e dos sinuosos movimentos de seu corpo coberto por tinta fosforescente.

* Por Marcus Mello, crítico de cinema e editor da revista Teorema


Font: portal GaúchaZH
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