Os envolvimentos de setembro em alusão à Semana Farroupilha inquietam quem já teve a oportunidade de pegar um livro que seja sobre a cultura gaúcha e lê-lo com uma dose ao menos de olhar questionador. Até mesmo os escritos pelos folcloristas Paixão Cortes e Barbosa Lessa deixam claro como a identidade do Rio Grande do Sul foi uma construção, o que fica explícito em seus pontos de vista, seus locais de fala e suas intenções explicitamente declaradas, como por exemplo, a citação sobre as danças tradicionais gaúchas, hoje tão cultuadas nos CTG’s, encontrada na página 12 do livro “Danças e Andanças da Tradição Gaúcha” (1985): “[...] há mais de um quarto de século, ressurgiram como danças tradicionais – ou “projeções folclóricas” – entre jovens pré-universitários de Porto Alegre e que talvez voltem a ser folclóricas, algum dia, quando a massa popular interpretá-las com a mesma espontaneidade e atualidade com que fala ou trabalha, sem a autoconsciência de estar cultuando artisticamente vestígios do passado”.

Sobre essa autoconsciência é o que quero escrever. Décadas se passaram desde a institucionalização do gauchismo, a partir da criação do Movimento Tradicionalista Gaúcho, e inúmeras outras ações políticas do estado para que hoje a questão da identidade rio-grandense seja entendida dessa forma. Posso citar alguns exemplos, como a criação do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore em 1974, pleno auge da ditadura militar, sendo o responsável por financiar, incentivar e promover projetos de incentivo à preservação cultural do Rio Grande do Sul (vale ressaltar aqui a extinção deste órgão pelo atual governo do estado e o desmonte, por esse ato, do grandioso arquivo de mais de 7 mil fonogramas e elevada bibliografia da produção cultural do Rio Grande do Sul, que hoje está distribuído em lugares diversos de forma no mínimo imprudente). Também outra ação para mantimento da cultura gaúcha foi a oficialização da Semana Farroupilha, que deu-se um pouco antes da criação do IGTF, mais especificamente no ano do Golpe Militar (1964).

É interessante pensar como no contexto político da ditadura os regionalismos foram impulsionados, pois eles, simbólica e literalmente, criam exércitos de defensores de fronteiras, fenômeno comum à formação dos estados-nação. Assim, é bem compreensível a exaltação de culturas regionalizadas nestas conjunturas políticas. Tal fato converge com os entendimentos sobre tradição e macheza, presente no gauchismo. Segundo o historiador Hobsbawn (no livro "Tempos Fraturados" de 2013) a constituição de uma cultura alicerçada na masculinidade refere-se a uma fundamentação histórica secular do mito do centauro, que teria influenciado enormemente a cultura ocidental através de “características masculinas, pastoris e que possuem ligação com o cavalo”. Para Hobsbawm “o que eles têm em comum é óbvio: tenacidade, bravura, o uso de armas, a prontidão para infligir ou suportar sofrimento, indisciplina e uma forte dose de barbarismo ou ao menos de falta de verniz, o que gradualmente adquire o status de nobre selvagem. Provavelmente também esse desprezo do homem a cavalo pelo que anda a pé e esse jeito fanfarrão de andar e se vestir que cultiva como sinais de superioridade. Acrescente-se a isso um distinto não intelectualismo, ou mesmo anti-intelectualismo. Tudo isso tem excitado mais de um sofisticado filho da classe média citadina.”

Nem na barbaridade (no sentido de barbárie mesmo) a cultura gaúcha é exclusiva, sendo um traço cultural comum gerado “por um grupo social e economicamente marginalizado de proletários desarraigados” (HOBSBAWN, 2013). Ou seja, para o historiador britânico, os grupos que geram com mais facilidade o mito heroico são as populações especializadas em andar a cavalo, mas que, em certo sentido, ainda se mantêm vinculadas ao resto da sociedade, “ao menos no sentido de que um camponês ou um rapaz da cidade possa imaginar a si mesmo como um caubói, um gaucho ou um cossaco.”

Com esses argumentos fica visível, detrás de toda essa tradição, ares de uma cultura violenta, machista, alicerçada no homem/ branco/ heterossexual/ descendentes de imigrantes europeus, e excludente de tudo que for contra isso, inclusive da mulher, como já falamos por aqui diversas vezes. Com esses alicerces culturais construíram-se elementos de uma cultura que não representa a multiplicidade étnica do estado. Isso inclusive é justificado por Côrtes e Lessa quando afirmam (no livro já citado) que se basearam em suas pesquisas na cultura “da elite”, o que chamam de “grupos sociais superiores” que seriam os que “dispõem de meios mais modernos e mais eficazes de adaptação do ambiente”.  A exploração e/ ou apagamento de culturas “subalternas” é chamada como “influência” das classes mais “evoluídas” sobre as “menos evoluídas”. Também vemos nessas narrativas muita romantização na relação do índio e do negro com o branco, escondendo-se o conflito demarcado em um passado de pesada escravidão no estado, muitas vezes acobertando a própria presença de negros no sul do Brasil.

A lista de segregações é tão grande que até o Movimento Missioneiro surgiu na contra-mão desse discurso hegemônico dos CTG’s, alegando uma identidade diversa desta representação assumida pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho, buscando incluir a cultura indígena nas representações do novo movimento que criou. Porém, o Movimento Missioneiro também recebe críticas por deixar de lado a cultura afro-brasileira em suas simbolizações como pesquisou Rodrigo Miguel de Souza em “Missioneiros, Morenos e Negros: Identidades, Representações e InvisibilidadeNa Região Das Missões, RS” (2013). Ou seja, esse é um campo de disputas simbólicas acirradas, então acho que vale a pena ao menos pensar sobre isso tudo e criarmos uma “autoconsciência” sobre os fatos culturais.

Os ideais relacionados à cultura gaúcha muitas vezes evocam a violência, através do passado de guerras, e ideais separatistas como os movimentos que ressurgiram nos últimos anos. Como entendimento de bravura ou coragem brotam características sociais conservadoras e intolerantes às diferenças. Um campo simbólico onde isso é fortemente notável é a música, onde percebe-se a presença de algumas letras machistas (questão que já tratamos aqui), proibições quanto a ritmos, instrumentos e inúmeras regras de vestimenta em determinados eventos, além de gestuais agressivos e impostações vocais impositivas perceptíveis na performance musical, ou seja, questões estéticas ordenadas para pensarmos em outra oportunidade.

A partir desses entendimentos cristalizados de forma negativa sobre tradição gaúcha brotam argumentos para atitudes homofóbicas, machistas, violentas, que veem razão e alicerce nesse entendimento que normatiza formas de socializar impositivas e restritivas. Vale lembrar o incêndio no Centro de Tradições Gaúchas em Livramento quanto nele ia acontecer um casamento gay em setembro de 2014. Hipocrisia ou simples não aceitação da realidade, visto que os próprios CTG’s estão repletos de homossexuais que literalmente bancam o movimento com suas mensalidades à esta associação civil, o que reflete como os costumes, hábitos e entendimentos são mutáveis.

Como dinâmica que é a cultura, ela se renova e se reinventa. Os elementos identitários passaram por um filtro nas últimas décadas por artistas e intelectuais. Indivíduos condensaram os entendimentos cristalizados desse imaginário construído e representativo, repleto de apelo emocional, exposto em códigos sonoros, imagéticas, espaços, climas e temperaturas. Vitor Ramil, Renato Borghetti e Yamandu Costa são alguns destes personagens, que transpuseram os significados culturais do Rio Grande do Sul a um fino filtro, abrindo mão das características ideológicas excludentes. Atualmente somos uma geração que viveu as décadas de um gauchismo entranhado nas mídias, que aprendeu a história contada pela ótica dos vencedores e dominadores. Mas também somos contemporâneos de quem (re)produziu o gauchismo sob um outro paradigma, tanto intelectual quanto artístico.

Impossível ver o gauchismo da mesma forma quando se conhece o movimento litorâneo e sua atuação nos festivais nativistas. Uma explícita cobrança por legitimidade quanto a identidade do Rio Grande do Sul, que foi claramente demonstrada em pesquisas como a da etnomusicóloga Luciana Prass com o maçambique de Osório (Maçambiques,Quicumbis e Ensaios de Promessa (2009)). Também impossível ficar inerte às composições que surgem dessas reflexões nos próprios festivais nativistas como, por exemplo, os versos de “Parentes da África” de Cao Guimarães interpretada pela Loma no festival Moenda da Canção.

Como não ver o gauchismo de outra forma depois de ter conhecido a obra de Bebeto Alves e suas ressignificações sobre a milonga, que diga-se de passagem é um gênero de disputas simbólicas intensas. Uma breve contextualização: o ritmo ressurge na região platina nas décadas de 1960/ 70 como símbolo do movimento “nova canção” diretamente ligada à canção de protesto e de uma união entre América Latina, mas poucas décadas depois é usada como discurso de pureza e legitimidade aqui no Rio Grande do Sul, questão que Bebeto sempre problematizou e rebateu em sua obra.

A academia também está repleta de trabalhos que desconstroem o discurso hegemônico do gauchismo. De Luís Augusto Fischer a Juremir Machado, passando por Tau Golin e chegando as novas gerações como Lucaz Panitz, (pesquisador que inspirou o documentário Alinha fria do horizonte (2012), que fala das conexões entre artistas do Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai), ao João Vicente e suas pesquisas em comunicação sobre a música popular gaúcha e suas atualizações e acompanhamentos do blog Pampurbana.

Impossível sair com a mesma imagem estereotipada do Rio Grande do Sul após assistir os documentários feitos pelo Projeto Gema. Com uma qualidade admirável reconstroem as narrativas sobre as identidades marginalizadas no estado como a indígena e suas cosmovisões de mundo e música, a identidade sonoro-musical das bandinhas alemãs, sambistas e o movimento samba rock tão resistente no Rio Grande do Sul e reconhecido nacionalmente, os maçambiques de Osório já citados, a hibridização na musicalidade do guitarrista Bonitinho, os gaúchos negros no interior de Livramento, no Quilombo do Ibicuí, entre outras identidades.

Como não descontruir o que é o “gauchismo tradicional” vendo a obra de Vitor Ramil e a forma que dialoga com a singeleza dos versos de João da Cunha Vargas? Como não compreender a significância de nossa localização geográfica e cultural após ler a “Estética do Frio” (1997) defendida por Ramil? Como não perceber a ressignificação do gauchismo vendo a obra de artistas como Pirisca Grecco (e sua Comparsa Elétrica), os versos do Cabo Deco e do Pedro Ribas, entre outros, que com legitimidade e sabedoria sobre o campo, advindo do convívio direto com a cultura gauchesca, atualizam de forma criativa, subjetiva e até existencialista estas identidades?

Como não ver mudança em tudo que foi construído sobre o gauchismo vendo o protagonismo de uma mulher neste segmento como cantora, apresentadora e empresária que é a Shana Muller, uma das poucas artistas a levar a música regional gaúcha ao espaço do espetáculo e da “alta cultura” que é o Theatro São Pedro? Também como não perceber a mudança através da presença de musicistas cantoras e instrumentistas nos ambientes de música regional gaúcha e do surgimento de bandas gauchescas formadas só por mulheres, que apesar de algumas ainda reiterarem os estereótipos construídos em seus repertórios, hoje dividem espaços e funções profissionais neste nicho de mercado que é o gauchismo?

Como não problematizar visões conservadoras sobre a cultura gaúcha vendo artistas como Paulinho Goulart (e seus colegas de grupo Instrumental Picumã), Gabriel Romano, Zelito Ramos e tantos outros que tiveram um forte contato desde cedo com a tradição gaúcha dos CTG’s, seja pelo contato familiar ou por ligações profissionais, e que através dessa vivência construíram a linguagem, sotaques musicais e fraseados, mas que hoje expõem suas múltiplas influências em suas composições, através da realização de trabalhos independentes sem a necessidade de aprovação ou avaliação estética das gravadoras?

A lista felizmente é bem grande e precisa ser apontada. Então deixo o convite para mostrarmos o que de renovado a cultura gaúcha tem (os convido a elencar novos nomes ao compartilhar o texto ou nos comentários). Fica também a dica de dar um google nos nomes e trabalhos aqui citados.

Por um processo de destilação (termo surgido em conversa com o pesquisador Lucaz Panitz) passou a cultura gauchesca. Filtro da pós modernidade e de todas as epistemologias desconstruidoras e relativizadoras da tradição como algo incontestável e sem “autoconsciência”. Nas palavras de Hobsbawn “as tradições são inventadas”, então que possamos tecer uma cultura menos excludente e mais plural, nem que para isso seja necessário reinventá-la.


Fonte: blog Gauchismo Líquido, de Clarissa Figueiró
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