Por Shana Müller

Elma Santana não é boa cavaleira, mas criou um grupo de amazonas que leva o nome da sua principal inspiração: Anita. É Anita Garibaldi, que a encantou quando decidiu pesquisar sobre as mulheres na tradição gaúcha, ao perceber que não existia literatura que registrasse a presença feminina na história do Estado. Foi assim que descobriu muito da formação social e antropológica do Rio Grande do Sul e acabou se tornando referência do feminino na cultura gaúcha.

Segunda mulher a ocupar o posto de Patrona dos Festejos Farroupilha (a primeira, Nilza Lessa, era a viúva do folclorista Barbosa Lessa), Elma tem mais de 30 livros publicados, todos com foco na mulher. O primeiro é de 1984, O Folclore da Mulher Gaúcha. Foi assim que descobriu sobre as índias e tudo que herdamos delas, as que vieram das cidades, na época do Brasil Império, para servir aos Dragões do Exército, soldados que mantinham as fronteiras, as açorianas. Elma é uma mulher que nos fala do folclore da menstruação, das parteiras e benzedeiras em um movimento cultural que tem o homem como foco principal desde seu princípio, mas que, segundo ela, vem se atualizando nos novos tempos.

Em homenagem a ela e a sua pesquisa sobre Anita Garibaldi, a Chama Crioula foi acesa neste ano em Mostardas, cidade onde nasceu, em meio à Guerra dos Farrapos, Menotti, filho de Anita e Garibaldi, e que é um marco na demonstração de bravura da heroína farroupilha. Conversei com Elma sobre sua trajetória e as mudanças na tradição do Rio Grande do Sul e o real papel da mulher. Ela se considera contestadora, têm frases fortes, mas também uma fala conciliadora. Segredos, só um: a idade, que a patrona não revela.

De onde vem a sua relação com a tradição gaúcha?

Minha família não é ligada ao CTG nem ao tradicionalismo, são gente do campo. Eu sou muito urbana. Sempre me preocupei em saber a origem da mulher. Um dia encontrei o Nico (Antonio Augusto Fagundes) e quis saber se alguém tinha escrito sobre a mulher. Ele afirmou que não. Não era uma relação de criança, mas  de adulta. Como disseram, fui escolhida Patrona pela minha biografia. Fui aluna do Paixão Cortes e do Nico. Ao fazer o curso do Palestrina (Faculdade Palestrina), minha tese (que virou livro em 1984) foi sobre a mulher. Comecei estudando as índias – caingangues, Mbaias e guaranis –, o que herdamos delas, depois as açorianas.

Depois da curiosidade sobre a mulher, como acabas fazendo parte do tradicionalismo até chegar a ser patrona dos festejos farroupilhas?

Quando fiz esse trabalho, vivia muito no 35 CTG. Ia a todos esses lugares para acompanhar o Nico Fagundes e o Paixão Cortes. Nessa época, já era professora de folclore formada, dava aulas no Interior; comecei a me envolver com a música nativa, era jurada dos eventos. Ia sozinha para os festivais.

E como era tua relação com o ambiente, muito frequentado por homens nessa época, nos anos 1980? Sentia algum preconceito?

Não. Na época, fazia muitos programas de rádio e TV, e as pessoas me respeitavam porque eu ia para debater, não ia para dançar… Era desquitada, e isto era um problema no CTG naqueles tempos. Mas eu não ia pro CTG dançar, beber. Me envolvia na parte cultural.

A gente sabe que o tradicionalismo surge em 1947 com um grupo de homens, o Grupo dos 8. As mulheres, naquele momento, não fizeram parte pensante do movimento. No máximo, estavam lá como “namoradas”. A que creditas o abandono da mulher nesse cenário?

É como começo meu livro: “Falamos muito da coragem do homem do Rio Grande do Sul. Está na hora de começarmos a falar sobre a mulher”. O Erico Verissimo já falava sobre isso quando se referia à posição de fronteira, das constantes guerras e das mulheres que aqui viviam e raramente despiam o luto. Essa construção histórica de fronteira, de uma vida dura, da geografia que nos forja, não tinha uma representação da mulher. Inclusive, eles foram ao Uruguai e copiaram as roupas.


Shana Müller e Elma Santana: duas gerações do movimento tradicionalista |Foto André Feltes


Em que momento a mulher passa a ter importância no MTG? E que mulheres como a senhora pode citar?


Eles tiveram que criar um grupo de mulheres quando se deram conta de que precisavam delas para dançar. Quanto às mulheres, cito algumas como a Nilza Lessa, a Marina Paixão… Mas são as mulheres deles. Pelo fato de eu ser desquitada naquela época, não convivia muito, porque fui avisada de que minha condição talvez causasse desconforto às mulheres. Hoje não mais.

E o tradicionalismo acompanhou o papel da mulher na sociedade?

Acho que sim, está se adaptando. Vi no Jornal do Almoço, por exemplo, duas meninas que são casadas há muito tempo e trabalham no campo. Imagina! Quando usei bombacha, fui muito criticada. E nunca usei vestido de prenda, porque o considero de gala, de festa. Eu ia a todos os lugares de bombacha, acompanhada do meu filho.

E o feminismo?

Eu achava que não era feminista, mas cheguei à conclusão, convivendo com a amiga do teatro, Suzana Saldanha, que é superfeminista, de que sim, tenho esses ideais comigo. Luto pela igualdade de gênero. Ao ser escolhida patrona, pensei nisso. Estou ali representando a história da Anita Garibaldi e seu caminho sem volta na vida e na história gaúcha. Ser escolhida é um reconhecimento ao papel da mulher na tradição e também um reconhecimento da Anita como figura fundamental na Revolução Farroupilha.

O que representa para a senhora ser patrona?

Fiquei surpresa. Imaginava algo como Feira do Livro, afinal tenho mais de 30 livros publicados. Não sou ligada diretamente ao tradicionalismo, apesar de ser referência bibliográfica. Então, me surpreendeu. Houve uma eleição, e soube que fui escolhida pelo meu currículo, pela história que construí no resgate do papel da mulher. Fiquei feliz, é uma mudança bem grande.

Mas isso é um avanço da respeitabilidade da mulher no movimento?

Claro que sim! Fui escolhida pelos meus livros, pela minha história de vida, sempre ligada de alguma forma ao movimento, aos festivais, aos rodeios. Não porque sou mulher, mas porque tenho uma contribuição.

A tradição do Rio Grande do Sul é machista, como alguns afirmam?

Não digo que seja machista, mas que algumas pessoas são, ainda são. O novo presidente do MTG, Nairo Callegaro, é uma pessoa incrível, jovem, revolucionário nas ideias, sempre me agradece a parceria com ele no tradicionalismo. A mulher evoluiu seu papel na tradição organizada, mas não perdeu sua essência.

E qual é essa essência?

É o estudo da tradição. As meninas não têm discursos vazios. As prendas estudam, têm grandes conhecimentos.

Como a senhora vê a indumentária feminina, do vestido de prenda, que tapa desde o peito do pé até o pescoço?

O mais importante não está em discutir a roupa, mas ideias. A roupa é uma representação. O papel intelectual é mais importante. O CTG é uma sociedade e tem regras para frequentá-lo, isso tem que ser respeitado. O mais importante é manter a cultura, discutir e trocar ideias, mas, já que existe um regulamento, deve ser respeitado. Não quer dizer que eu não questione, estou sempre questionando. O universo feminino sempre me encantou, principalmente as mulheres simples. Eu pesquisei as parteiras, benzedeiras, mulheres que foram importantes sempre na história, no interior, onde não havia acesso à medicina, por exemplo. Essas mulheres foram fundamentais e são até hoje. Falo desde sempre, por exemplo, do folclore da menstruação, coisas que os homens folcloristas não querem tratar, mas que temos muito no nosso dia a dia. Quem nunca ouviu que a mulher quando está naqueles dias desanda o bolo? Que cobra que morde mulher menstruada morre e por aí vai? Faço palestras e levo os paninhos que se usavam antigamente, quando ainda não havia o absorvente, para mostrar como esse universo feminino foi construído. Há algo muito profundo no feminino, na capacidade da gestação.

E como eram as mulheres da sua família?

As mulheres tinham papel fundamental. Meu pai morava na granja. Minha mãe era dona de casa e cuidava de um monte de filhos e sobrinhos. Eu me formei professora, porque era a profissão feminina. Minha avó foi professora, era uma mulher forte que reivindicava assuntos importantes para a educação junto aos governos. Minha casa não tinha isso da submissão feminina, porque meu pai tinha uma vida rural, e a mãe era nosso ponto de referência. Fui a primeira a me desquitar na família. Quando estudante, no Instituto de Educação, fui das primeiras a usar calça comprida. Fui paraninfa da minha turma, há 40 anos. Fui escolhida pelos alunos, mas lembro que a direção não tinha muito interesse que eu fosse.

E qual o caminho para tradição seguir dialogando com a sociedade?

Primeiro, respeito. E as pessoas serem autênticas.  Anita foi desprezada por alguns historiadores, que a consideram uma mulher que abandonou a casa e o marido, uma prostituta. Lembro de uma vez ter ouvido o Barbosa Lessa falando sobre ela e, tempos depois, veio se desculpar comigo.


Fonte: Revista Donna - ClicRBS
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