Comunico a triste noticia, que a Rainha do Acordeon Jeannette Ferreira Moraes  faleceu essa madrugada (terça-feira). Cruz Alta perde uma filha e o Rio Grande um ícone da música gaucha. Sepultamento se deu às 15:00hrs no Cemitério municipal de Cruz Alta - RS.

Conheça um pouco mais dessa Gaúcha que foi exemplo para muito gaiteiros, matéria publicada em 2015 no site
https://ouvidomedio.wordpress.com

Trazemos cá mais um bom argumento para nos orgulharmos da nossa terra: Jeannette Ferreira Moraes – a Rainha do Acordeon em sua essência expressiva musical.

Jeanette é uma figura ímpar. De prosa solta, riso no rosto e disposta a soltar a língua sobre temas recorrentes como música gaúcha e América Latina. Música, compositora e professora formada em Harmonia e Solfejo. Desde os cinco anos estudava piano clássico no Colégio Santíssima Trindade, aos 14 anos iniciou sua carreira profissional convidada a acompanhar nos shows o cantor Gildo de Freitas. Expressa na fala a personalidade da mulher do campo e demonstra força e vitalidade embora esteja em tratamento de saúde.

Sua técnica inquestionável de tocar, principalmente pelo uso da baixaria do acordeon na maioria de suas músicas e a composição a frente da época considerando as difíceis notas e ótima execução, a faz lembrada até hoje pelos amantes da música gaúcha e por quem pretende ser acordeonista. Foi reconhecida como a maior gaitera gaúcha de todos os tempos. Além de discos solos o grande sucesso obtido foi com a dupla Nelson e Jeanette. A rainha conta seus palpites provocadores sobre a nova geração tradicionalista “parece que as pessoas que amavam genuinamente o Rio Grande do Sul estão acabando, agora é tudo mistura disso e daquilo, eles estão misturando danças, músicas, costumes. A própria Coxilha, já foi muito melhor. A tradição gaúcha está bastante deturpada” .

A propriedade de fala vêm da artista que aos 14 anos, convidada por Gildo de Freitas, um dos cantores mais reverenciados do sul, precisou casar-se para poder acompanhá-lo em shows sem ter sua integridade moral condicionada a avaliação daqueles que “naquela época, 62, consideravam a mulher artista/música uma puta” lembra. Fez shows aqui e no exterior ao lado de Gildo, que em reconhecimento ao talento e técnica a atribuiu o título de ‘Rainha do Acordeon’, adotado pelos gaúchos. Com seu primeiro companheiro amoroso e musical Nelson, gravou grandes sucessos e no final da década de 60, a dupla fazia era famosa no país inteiro, levando o nome de Cruz Alta. O xote “Saudade de Cruz Alta” era tocado nas rádios e TV e embalava pares nos Clubes, Rodeios e CTGs, trecho inicial “Cruz Alta é minha terra e sou filho deste pago”.

Independência, infância e destino

Sobre a carreira solo a cantora afirma “são muitas composições gravadas por mim, tenho 10 LPs, 21 CDs e oito DVDs, se contar minhas músicas, devo ter umas 800, incluindo as que os colegas cantam e tocam”. Recebe exporadicamente pelos direitos autorais, pagos pela gravadora, paralelo, lucra mais com a produção independente em stúdio de CDs e DVDs. Suas canções falam sobre ser mulher, sobre família, amor, bailes, sociedade e claro, sobre a tradição do gaúcho e da gaúcha. Aos 73 anos quando pensa sobre o que mais sente falta, resume em uma palavra “infância”. “Nasci na campanha, na Estância da Boa Vista, quando ainda pertencia a Cruz Alta, sou filha única, minha mãe sabia tocar mais de sete instrumentos musicais, meu pai era agropecuarista, desde muito cedo tive contato com o campo, por vezes fazia o serviço dos peões, sinto falta de andar a cavalo” relembra a filha cruz-altense que passou 57 anos fora de casa.

Protagonizou fundações de CTGs no interior do país e no exterior, o dia em que o monumento à Santinha recebeu a imagem vinda de Portugal, conta ter subido nos andaimes para ver de perto, “de lá pra cá Cruz Alta cresceu muito tanto para cima quanto para os lados, o número de bairros que temos hoje é muito maior, só da minha janela da direita consigo contar 52 edifícios” expõe. Conheceu durante a carreira todas as capitais da América Latina e o Brasil inteiro “noto as vezes o pessoal deslumbrado com a Europa, fico pasma quando vejo, porque as pessoas deixam de conhecer o quanto é bonito aqui e preferem investir e gastar no exterior. O Brasil é tão maravilhoso como não se tem ideia, basta conhecer o Ceará, Fortaleza, Belo Horizonte, Salvador, a perfeição da beleza do Rio de Janeiro, São Paulo e o Maranhão, então” exclama.

A rainha mora sozinha no alto de uma das coxilhas mais visitadas na cidade, em frente a Santinha, foi autorizada pelo médico a tocar no máximo quatro musicas por dia, não tem filhos “fiquei grávida nove vezes, seis vezes de gêmeos e três vezes de trigêmeos, perdi todos os 21 antes de nascerem, o diagnóstico foi fibroma, fiz o tratamento e não tentei depois. Sofri bastante com isso, mas para algumas coisas não exitem explicações, hoje já superei e não me sinto sozinha, tenho muita fé em Deus” fala enquanto acaricia o fole, os120 baixos e as 41 teclas.

Em 2009 ela, Jeannete toca uma de suas músicas numa gravação de um vídeo com o título CHIQUINHO SALES - uma vaneira que certamente foi homenagem ao grande Poeta Francisco Carlos Sales, o Chiquinho, esse assisense que fez história no meio artístico nos anos remotos.
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