Foto: Valter Fraga Nunes


Hoje vamos prosear sobre um Rio Grande que viveu em nós mas que, infelizmente, não existe mais. Muitos poderão dizer: - Mas que assunto arcaico e óbvio! O tempo passa, as coisas mudam, o progresso bateu em nossas portas. Não podemos e nem devemos viver de saudades.

Mas não é sobre a evolução de bens materiais que me refiro. O Rio Grande que falo e que viveu em nossas memórias poderia muito bem estar dentre nós nos dias de hoje.

O pago, o berço, a querência nativa a que me debruço é aquela do respeito, aonde os filhos davam louvado (pediam a benção) aos mais velhos. Onde as professoras tinham a licença para executar o aluno desregrado sem ter que responder na justiça aos pais super-protetores de hoje. 

O Rio Grande antigo, e que cheguei a pegar uma réstia, é aquele onde a cor dos lenços definia seu posicionamento político, nem que pelear fosse preciso para defender seus intentos. O de agora, assim como no resto do País, é do conchavo. Vivemos numa Pátria onde sobressai a corrupção.
 
Nos áureos tempos deste pampa largo, ladrão era tratado como ladrão. Apanhava e ia preso. Não se pegava o que não lhe pertencia e quem o fizesse sabia do seu castigo. As pessoas eram pobres mas tinham dignidade (e pão na mesa). Nos dias atuais, quem vive encarcerado é o próprio povo dentro de seus ranchos. 

Que tempos buenachos aqueles em que se cumprimentava de mão em mão, se dava lugar no bonde para um dama sentar-se, se tocava na aba do chapéu em reverência. Onde a palavra tinha valor. Onde a estampa e o modo de falar definia a sua origem.

Lugar terrunho, tempos idos, em que a pornografia era restrita as tascas povoeiras, as casas de luz vermelhas, aos cabarés, as zonas do meretrício.
  
Época em que as músicas tinham fundamento, as gaitas tocavam o balaio, a meia-canha, e serviam de fundo para as serenatas seguidas de bailongos. Os violões? Estes  ponteavam ternas milongas a beira do fogo de chão.
 
Talvez por isso essa minha insistência na preservação de nossos costumes e tradições.

Os leitores poderão argumentar: - Mas isto tudo não existe mais em lugar nenhum do mundo. Tua prosa é utopia. No que eu contraponho dizendo. - Existe sim. A salvação está dentro de nós mesmos.

Basta olhar a dedicação, o despojo, o voluntariado, o prazer em fazer o bem de dezenas de pessoas auxiliando nesta desgraça que abateu-se sobre São Francisco de Paula. A todo momento me chegam relatos de amigos, de instituições filantrópicas, de entidades tradicionalistas querendo ajudar e ajudando. Acredito que nem tudo está perdido e que do Rio Grande de antanho ainda existe uma réstia, uma chama, uma esperança.   


Fonte: blog do Léo Ribeiro
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