Foto: Divulgação

Trilhas do Sertão
Os sertões de Paranaguá (Campos de Curitiba) foram percorridos por garimpeiros à cata de couro de aluvião, seguindo as antigas trilhas indígenas. O termo sertão indicava terra despovoada e desconhecida. Vários mineradores solicitaram sesmaria para criação de gado vacum e cavalar, fornecendo alimentação aos garimpos. Em 1668 ergueram o pelourinho, símbolo de justiça e de vila, em Curitiba.

A descoberta de ouro em Minas Gerais e Mato Grosso provocou um abalo no mundo colonial, desencadeando o movimento demográfico para a região de mineração, aumentando o número de barcos para salvador, Rio de Janeiro e Santos, incrementando o tráfico de negros entre Angola e o Brasil, desenvolvendo as rotas de tropeiros que atingiam o rio São Francisco, ou que vinham do Mato Grosso e do extremo sul.

A primeira tentativa de povoamento do litoral do Rio Grande do Sul é de Manuel Jordão da Silva que, em 10.06.1698, requereu ao Rei de Portugal licença para fundar a cidade de São Pedro no Rio Grande e uma vila no rio Taramandi (atual Tramandaí). Conseguiu 50 soldados às suas custas e mais dois frades franciscanos. Os dois barcos naufragaram no litoral do Rio Grande do Sul. Os náufragos que se salvaram terminaram sendo mortos pelos charruas.

Em 1703, Domingos da Filgueira viajava a pé desde a Colônia do Sacramento até o Rio de Janeiro, seguindo a trilha do litoral que estava desabitado, mas com caça abundante. Filgueira denominou a Laguna dos Patos de Rio Grande. O nome lagoa dos Patos começa a aparecer na cartografia portuguesa a partir do mapa de Silveira Peixoto, de 1768.

O sargento-mor Francisco Ribeiro, que serviu na Colônia do Santíssimo Sacramento, deixou uma descrição do litoral do Rio Grande do Sul, datada de 1704. Propôs a fundação uma povoação e de um presídio (guarnição) com 200 infantes em duas companhias e 50 cavalos, em Rio Grande e outra em Maldonado, com três companhias de 100 homens e 50 cavalos.

De 1725 a 1729, João de Magalhães, a mando de seu sogro Francisco de Brito Peixoto, estabeleceu-se com uma tropa de 31 soldados no norte do canal do Rio Grande para construírem ranchos e fazerem canoas suficiente para a serventia de passagem do gado que atravessava o canal. Havia naturalmente a cobrança de pedágio pela passagem. João de Magalhães não fundou nenhuma povoação, manteve apenas um registro ou posto de pedágio.

Ao longo da trila do litoral, desde Colônia do Sacramento até Laguna, surgiram pousos e currais. De 1727 a 1730 o sargento-mor Francisco de Souza Faria abriu a trilha do Morro dos Conventos, por onde as tropas de gado atingiam facilmente de marcha pelo divisor de águas, sem necessidade de cruzar rios caudalosos.

Com a rota de tropas afastada de Laguna, os lagunenses e tropeiros buscaram o caminho do gado, solicitando sesmarias ao sul do rio Mampituba, nos chamados Campos de Viamão. Em 1732, Manoel Gonçalves Ribeiro recebeu a primeira sesmaria na praia das Conchas, em Tramandaí. A sesmaria era uma área de terra de mais ou menos três léguas de comprimento por uma de largura, concedida pelo rei de Portugal aos homens de posse. O pobre não tinha direito de receber terras, porque a pobreza era sinal de incompetência.

Transformaram as sesmarias em fazendas de criação de gado vacum, cavalar e muar. O gado era retirado da vacaria do Mar e das estâncias missioneiras. Os burros reprodutores (echores) vieram do território espanhol. A criação de mula fazia-se com um burro e um piquete de 20 léguas. Além da criação extensiva, a fazenda possuía uma pequena lavoura de milho, mandioca, abóbora e feijão para alimentação da família e dos peões.

No século XVIII era chamado de tropeiro da tropa, os demais eram o capataz, o arrieiro, o camarada e o peão. O que conduzia a mula ou égua madrinha era o madrinheiro. Um peão servia de cozinheiro e conduzia as mulas do trem, isto é, da bagagem e das caixas de alimentos. No início do século XIX o termo tropeiro designava também o capataz da tropa. Mais tarde o termo se generalizou, referindo-se a todos que trabalhavam com a tropa de vacuns, cavalares ou muares. A tropa podia ser de mulas xucras ou de mulas cargueiras.

Cristóvão Pereira Abreu, em 1731, corrigiu a trilha do Morro dos Conventos, conduzindo sua tropa de 800 animais até os Campos de Curitiba. Em 1733 levou pela mesma trilha mais de 3000 cavalgaduras. Em 1736 ou 1737 ele abriu a Estrada Real de Viamão, partindo do Capão da Porteira, subindo pelo vale do rio Rolante até os campos de Cima da Serra, atravessando no Passo de Santa Vitória, no rio Pelotas, atingindo os campos de Lages, viabilizando a união mais rápida com a feira de Sorocaba, em São Paulo, que funcionou de 1750 a 1897.

Em 1736, os Campos de Viamão já estavam ocupados por estâncias, que também criavam mulas para as outras capitanias. As tropas de mulas eram o principal meio de transporte de mercadorias no interior do Brasil, durante o século XVIII até metade do século XIX.

A partir de 1731 funcionava o registro de Curitiba, localizado à margem direita do rio Iguaçú, cobrando taxas pela passagem de animais vacuns, cavalares e muares. Desde 1737 havia uma guarda no rio dos Sinos, que se transforma em registro em 1739, sendo transferido em 1772 para o Passo da Santa Vitória no rio Pelotas. Este registro funcionou até 1817, quando é aberta o Caminho das Missões que vinha de São Borja, passando por Carazinho, Cruz Alta, Passo Fundo, atravessando o rio Uruguai no Passo de Goi-en. A partir de 1866 o Caminho das Missões passou a ser povoado.

O ciclo do tropeirismo deixou um rico folclore no artesanato em couro, metal e madeira para a confecção de arreios e cangalhas, bem como uma literatura oral de contos de assombração, de busca de tesouro enterrado em panelas, benzeduras, orações de proteção, que infelizmente está se perdendo. Foi o tropeiro que desbravou o sertão do Brasil e ao longo das trilhas surgiram currais, pousos, povoados, que deram origem às atuais cidades de Cruz Alta, Carazinho, Passo Fundo, Lagoa Vermelha, São Francisco de Borja, Bom Jesus, Lages, Rio Negro, Mafra, Registro, Castro, Curitiba, Itu, Sorocaba.



Fonte: Livro História do Rio Grande do Sul de Moacyr Flores
Por Carolina Bouvie do blog Cantinho Gaúcho
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