Foto: Lidiane Hein

por Guilherme Milani Lorscheider


"Tchê, que tal dançar uma tirana? Mas qual a história dela? Como funciona? Porque tantas caras e bocas? De onde ela surgiu?"
 
Quem nunca se arrepiou com um levante de uma tirana? “Ponte-nove caiu nesta casa, tanta gente e ninguém viu. Morreu o infeliz passarinho, dentro de sua gaiola, aaaaaai! Meu nome não vale nada, adeus meu bem, vou-me embora.” Pois então, pensando nesta baita dança que iniciamos a nossa série Dançando na Estância.

"A Tirana foi uma das danças espanholas mais difundidas na América Latina. Afirma-se que a Tirana nasceu em Madrí, em 1773, lançada pela cantora Maria Rosario Fernandez, esposa de um ator cognominado "El Tirano", dono de larga popularidade na época. Dentro em breve a nova dança chegaria ao Brasil: efetivamente, já em 1790 sua presença era registrada em Cuiabá, na província de Mato Grosso. Na primeira metade do século passado, foi lançado com entusiasmo nos salões e no ambiente rural do Amazonas, de Minas, do Rio de Janeiro, da Bahia, de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul." (CÔRTES; LESSA; 1961, p.104)
 
Então uma pausa aqui. Já sabemos que a Tirana do Lenço não é uma dança criada aqui (como praticamente nenhuma o foi), mas que inicialmente foi difundida em boa parte do país. Voltamos ao texto...

"Entre os gaúchos, a "Tirana" adquiriu uma cor toda local, e se desdobrou numa série de variantes, nas quais predominavam ora as características da geração das danças sapateadas, ora as características da geração das danças de conjunto, sob comando."(CÔRTES; LESSA; 1961, p.104)
 
Outra pausa. Claro que o Gaúcho iria "agauchar" a dança, criando o máximo de figuras sapateadas, afinal, desde sempre o gaúcho é balaqueiro.

"A Tirana do Lenço denota sua pura integração na geração coreográfica das danças sapateadas, de par solto - não só pelos passos e sapateios, como principalmente pela mímica amorosa que caracterizou tal geração e que se resume num movimento de aproximação, fuga e encontro dos dois dançarinos. Esta dança era executada normalmente por um casal de dançarinos, mas as vezes por dois ou mais pares: nesse caso, então, as figuras se sucediam sob comando, de modo a guardar a uniformidade original." (CÔRTES; LESSA; 1961, p.104) ​
 
Agora sim chegou na Tirana do Lenço que todos conhecemos. Aquele que os dois começam se olhando por cima, realizando os primeiros Cumprimentos (Cuuuumprimeeeentos!!! Ta ra ra ra, ra ra ra ra, ra ra ra ra!) da dança, vindo a se conhecer, caracterizando a primeira figura da dança.

Após aquela primeira olhada e os avanços, realizam a Aproximação e Fuga, onde "frente-a-frente e sem se afastarem do lugar, o homem sapateia e a mulher sarandeia. Olham-se com altivez, como se em desafio" (CÔRTES; LESSA; 1961, p.106). Que nada mais é do que aquele momento que o peão chega bem perto da prenda e escuta até o coração dela batendo. E se for em um rodeio então, nem se fala. Conclui-se então a segunda figura.

A terceira figura: atração do lenço pelo Homem, é onde o Gaúcho começa a mostrar o quanto bom é. Agita o lenço e sapateia ao mesmo tempo, chamando atenção da prenda (sapatear, mexer um lenço, respirar, cuidar o alinhamento, cuidar a harmonia, cuidar para não parecer que está cuidando...). Depois de chamar a atenção, entrega seu lenço para a prenda, realizando um recuo, como que trazendo ela para o seu lado. Já que ela veio, fica faceiro e realiza um novo sapateio no lugar, e mais próximo dela, enquanto ela faz (ênfase no FAZ) que está gostando. Após a conclusão, "a mulher - arrependida - se desprende do lenço e foge, (...) este, enquanto isto, surpreendido e desolado pela fuga da jovem, limita-se a marcar os quatro passos num mesmo lugar e sem realizar curva." (CÔRTES; LESSA; 1961, p.104).
 
Em outras palavras, mulheres sendo mulheres. Mas seguimos com a dança.

E então, na quarta figura, acontece a situação inversa. Após ser desprezado, o peão fica imóvel, triste, desiludido (ou seja, homens sendo homens!). A prenda então, abana o seu lenço procurando chamar a atenção de seu peão. Como o mesmo não corresponde, decide avançar até a sua proximidade para tomá-lo pelo lenço. O peão quando nota que a prenda está tentando chamar a sua atenção, resolve persegui-la e conquistá-la através de sapateio. Assim define-se o romance, onde chega a parte final na quinta figura (e última!).

A última figura é a melhor parte da dança. É o momento que toda angústia de ambos os dançarinos termina, onde o dançarino percebe que a dança está quase acabando e conquistou o seu par, e que agora precisa aumentar o gás, dar a vida, para então sair acabado e ter certeza de que foi o melhor do mundo, e que com certeza os jurados também vão achar. Nesta última figura, peão e prenda agitam os lenços, em busca do encontro final (normalmente fazendo sapateios e sarandeios ninjas), onde poderão finalmente encerrar a dança em um tom vivo e romântico. E aí então, finda a dança!
 
Mas então, gostou de saber um pouco mais sobre a Tirana do Lenço? Não quer perder nada sobre as próximas danças que vamos contar? Então curte a nossa fan page no Facebook, compartilha com teus amigos e não esquece de marcar os galo véio dançador de Tirana! Um forte quebra costela e hasta luego!


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Fonte:  portal Estância Virtual
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