Simões Lopes Neto, um poeta moderno, mesmo antes do Modernismo


O contato que teve João Simões Lopes Neto com a vida do campo, o conhecimento da terra e da gente, possibilitou traduzir, com relativa fidelidade, a realidade do homem campesino. Sua obra revela, tanto no plano linguístico como na abordagem de temas, um equilíbrio que o torna merecedor do título de criador do regionalismo gaúcho, já que, transcendendo o mero localismo, JSLN apresenta o gaúcho numa perspectiva universal. Sua obra, embora escrita em tom telúrico, demonstra não só o apego à terra, mas ultrapassa os limites regionais, retratando os  conflitos humanos, que são iguais em qualquer lugar.

A parte mais significativa de sua obra corresponde à produção de “Contos Gauchescos”, coletânea de dezenove pequenas histórias narradas pelo vaqueano Blau Nunes, “alter ego” do Autor. Nesses contos, SL fixou o mundo rio-grandense com toda a sua oralidade e mitologia.

Em “Contos Gauchescos”, o protagonista relembra o passado para situar-se no presente: o início do séc. XX, com o campo repartido, a cidade crescendo e a indústria repropondo, em novas bases, o poder do capital. Blau tenta explicar, tanto “as cousas que ele compreendia, como as que eram-lhe vedadas ao singelo entendimento”. Por isso, se espanta e exclama, para e se interroga, interrogando, também, o leitor.

SL é, portanto, moderno antes do Modernismo, paradoxalmente, pela força do seu apego à tradição, entre outros traços de sua modernidade. Dentre eles, a instituição da figura de dois narradores: um que aparece apresentando Blau e outro que é o próprio Blau narrando seus “causos”. Porém, a questão mais intrigante é outra: onde começa um e termina o outro? Blau entra em cena já a partir do segundo parágrafo ou toda a “apresentação” é do outro, que vem de fora daquele ambiente?

É através deste clima que o leitor-comum começa a ler como quem entra em uma roda de galpão. Neste sentido, o Autor é muito perspicaz. O leitor não consegue “livrar-se” do que lê, pois sempre quer saber mais e mais. Outro fato bastante relevante é o poder persuasivo da obra, pois tendo os gaúchos estes aspectos telúricos tão enraizados em seu cotidiano, acabam por identificar-se com as histórias e apaixonar-se pelos causos que, na maioria das vezes, chegam a emocionar.

O Autor não teve reconhecimento na sua época. Viveu em dificuldades financeiras durante toda a vida adulta, herança de uma família aristocrata decadente. Fazia, como ele mesmo denominava, “bicos”, escrevendo matérias para jornais, usando pseudônimos, como “João Felpudo”. Teve peças teatrais (a maioria delas comédias e sátiras) descobertas só a partir da déc. de 70. Como empresário foi um verdadeiro fracasso. Quando veio a falecer, foram publicados pelo jornal “A Opinião Pública”, onde trabalhara até morrer, apenas dois projetos escritos por ele. Um didático, dedicado à instrução primária, e outro sobre piscicultura, que para o referido jornal “bastavam para formar a reputação de João Simões”.

Conforme nos disse Hilda Simões Lopes “tratava-se de um poeta e, em terra de charqueadores e fazendeiros, queriam-no empresário.”. Mas hoje, quando comemoramos o biênio Simoniano, render-lhe homenagens é ainda pouco. Um visionário, um homem à frente de seu tempo. Escritor de talento ímpar, que com coragem e pioneirismo incontestáveis compilou da oralidade a história de um povo e a partir dela, fez literatura. Reconhecer sua grandiosidade e as inegáveis excelências de sua obra é mais do que uma obrigação. É o pagamento de uma dívida histórica.

Texto de Renata de Cássia Pletz
Para o Eco da Tradição de junho

Centenário da morte de Simões Lopes Neto

Vivemos na era da informação imediata. Um clique, e o mundo sabe o que pensamos. Essas facilidades nos fazem refletir o quanto temos de possibilidades de fazer as coisas acontecerem em um tempo muito menor que nossos antepassados. Cezimbra Jacques e Simões Lopes Neto contavam com escassos meios de comunicação para a difusão de seus propósitos. Cada um, porém, fez o que pode. Simões pôs-se a pesquisar o folclore, a sabedoria espontânea da sociedade e reuniu centenas de quadrinhas populares em seu “Cancioneiro Guasca”. Depois projetou a cultura folclórica através das “Lendas do Sul”, dos “Contos Gauchescos” e dos “Casos do Romualdo”.

Mas havia um problema, que hoje não enfrentamos: a maioria das pessoas não eram letradas, entre outros fatores. Simões chegaria ao fim da vida como um modesto escritor, desconhecido além dos limites de Pelotas. Hoje nosso grande problema é que sabemos ler, isso mesmo, mas não gostamos muito. Simões Lopes ganhou notoriedade “post mortem”, com grande influencia na construção da identidade do povo gaúcho e do folclore de nosso estado.

João Simões Lopes Neto - (Pelotas, 9 de março de 1865 a, 14 de junho de 1916)


Fonte: blog do Rogério Bastos
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